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Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
atitude de um homem“ sábio”.
Estes dois versos expressam sua reflexão sobre seu sentimento de perdão, e, igual à estrofe anterior, com o uso da anáfora, o eu lírico confirma que o seu ato de confissão se deu de maneira solitária, pois ele“ Não teve o gesto nem a frase”. Ora, o gesto significa um dos pontos essenciais para a aceitação do perdão, pois o sujeito sente-se consciente diante de determinada atitude; já a frase, engloba o sentimento de conforto ou uma crítica diante dos seus erros.
Se na estrofe anterior havia alguma dúvida referente à confissão solitária do eu lírico, nesta nova estrofe ocorre a confirmação desse ato. E, apesar de o eu lírico compreender que sua atitude de se auto perdoar significar ser um gesto pessoal( v. 8), não se consegue aprender em nenhum momento um teor de mudança nas suas ações, ou seja, ocorre a percepção de consciência do erro, porém, não ocorre nenhum remorso em seu espírito. Estas consternações se assemelham com as considerações de Montaigne em seu ensaio Sobre o arrependimento: Estes homens aqui nos fazem crer que interiormente sentem grande desagrado e remorso, mas nada nos mostram para se emendar, nem uma melhora nem uma interrupção. Não há cura, porém, se não nos livrarmos do mal: se o arrependimento pesasse no prato da balança, venceria o pecado. Não encontro nenhuma qualidade tão fácil de contrafazer quanto a devoção, a não ser que o comportamento e a vida estejam de acordo com ela: sua essência é abstrusa e oculta, as aparências, fáceis e pomposas.( MONTAIGNE, 2010, p. 357). Ora, percebe-se o desagrado em nosso eu lírico no momento que se é cogitado o perdão pelos seus atos, no entanto, ele apenas se perdoou, mas não se redimiu, nem tampouco teve uma punição justa pelos seus pecados. Talvez estas considerações o aflijam, por isso percebe-se a presença melancólica em volta do poema.
Em torno destes versos, observase sempre um duplo uso de palavras que se relacionam:“ castigo” e“ perdão”,“ justo” e“ sábio”,“ gesto” e“ frase”. São sucessivas palavras que de certa forma se atraem, pois uma, em alguns casos, é consequência da outra. A última estrofe, contendo apenas um verso, confirma que o seu perdão foi“ silencioso”, ou seja, sem a frase de conformidade. Foi apenas um simples momento solitário e sincero consigo mesmo, na qual resultou em uma melancolia de confissão e reflexão pelos seus atos.
No decorrer do poema, a sensação de extrema sinceridade se envolve com o sentimento de confissão, partindo de um julgamento perpetrado a partir de suas percepções individuais. E, apesar de ser um poema curto, expressa intensidade de perdão e uma demonstração de religiosidade, pois mesmo parecendo estar longe das virtudes religiosas, o eu lírico consegue nortear a essência de um cristão ao retratar o seu conhecimento referente à própria consciência do pecado.
A percepção do erro engloba as equidades presentes na vida humana, cabendo a cada indivíduo encontrar o caminho mais apropriado para julgar suas falhas. O eu lírico se mostra convicto do seu autosentimento de perdão, e não demonstra as marcas de arrependimento tão presentes nas confissões, mas, acima de tudo, mostrase consciente de seus atos, e, sobretudo, sobre seu sentimento cristão. O que resta, apesar das dificuldades presentes em sua vida, é o seu próprio sentimento de perdão.
Vemos que em todo poema o foco é em torno da palavra“ perdão” evocada pelo eu lírico. Isto é bastante presente nas questões voltadas tanto para as noções autobiográficas, como também, nas obras poéticas elegíacas. Starobinski discorre que“ A fórmula elegíaca faz do poeta a matéria de seu próprio poema. A primeira pessoa é regra. Sempre se faz sentir a possibilidade de tomar a situação da escrita como objeto de discurso.”( STAROBINSKI, 2016, p. 256). Eis que a poesia cardoziana contém muito
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