Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo dessa essência elegíaca, que até já chamou a atenção da crítica, como foi o caso do escritor José Guilherme Merquior em seu ensaio de 1965.
Enfocando, agora, o aspecto religioso, a imagem que se forma é de um sujeito que se enquadra na melancolia do“ eu”, diante das vivências sobre sua vida espiritual. Ele sente-se afastado, porém, não por completo, pois de certa forma ocorre uma apropriação de conceitos e características religiosas, como, neste caso, da consciência do pecado já discutido anteriormente.
Dessa forma, o pensamento cardoziano referente às confissões envolve algumas nuances sobre suas experiências, evocando um sujeito melancólico diante de uma determinada conjuntura que o cerca. Mas, sobretudo, contém uma sensibilidade poética de profundidade.
Terceira análise: Preces, a religiosidade de“ um devoto esquecido”
Se nas confissões Joaquim Cardozo foca na interioridade do sujeito lírico, no qual, tudo se volta para ele, nas orações, o foco norteador é o sentimento de devoção. Aqui, o eu lírico mostra-se fiel as convicções religiosas católicas, em que descreve de maneira exemplar a presença de alguns santos da igreja católica.
No entanto, as confissões e as preces têm algumas particularidades em comum, visto que ambas, em alguns casos, recorrem ao divino como forma de súplica, agradecimento, angústias e entre outros. Eis que esta particularidade ressurge no sujeito lírico o sentimento de exposição da sua consciência de interioridade, em um momento individual e inteiramente devoto expressa suas percepções mais íntimas.
A fortuna crítica pouco discutiu sobre estas considerações religiosas em Cardozo, no entanto, salvam-se algumas ressalvas, como por exemplo, Dantas no texto“ Ser é paradoxal”, ao discorrer sobre os sonetos cardoziano, em que, o poeta enfoca principalmente a presença da Nossa Senhora:
Nos sonetos a Nossa Senhora – especialmente o“ Nossa Senhora da Conceição”-, a certeza que acompanha a fé não está dissociada da incerteza, da dúvida. São dois opostos convivendo em um todo. Aliás, essa ausência de dicotomias é uma característica forte que pode ser percebida em muito das suas composições.( apud CARDOZO, 2007, p. 79). Joaquim Cardozo intitulou vários sonetos a santas católicas, em especial a Nossa Senhora, como, por exemplo, em seu livro Mundos Paralelos( 1970), que possuem“ Nossa Senhora das Graças” e“ Nossa Senhora dos Prazeres”. Além dessas obras, as santas surgem novamente em seu livro Outros Poemas, livro este que apresenta o maior número de poemas dedicados as santas, assim destaca-se os sonetos“ Nossa Senhora da Conceição”,“ Nossa Senhora das Graças N ° 2”,“ Nossa Senhora do Carmo” e“ Nossa Senhora dos Navegantes”.
Neste panorama, com a constante presença do divino nas obras de Cardozo, em especial da santidade, o que se apreende, na maioria das vezes, é o sentimento de preces diante de uma manifestação religiosa em que se demonstra no eu lírico. Abordar este tema requer uma atenção especial, pois trata-se de questões inconclusivas presentes na sociedade. Montaigne, em seu ensaio Sobre as orações, deixou claro o teor particular diante do assunto, e como ele mesmo pondera, o seu ensaio foi elaborado“[...] não para estabelecer a verdade, mas para procurá-la.”( MONTAIGNE, 2010, p. 180). Nesta perspectiva o objetivo principal deste item será constituído pela análise do soneto“ Nossa Senhora do Carmo”, presente no livro Outros Poemas. Nota-se a presença de um aspecto mais voltado à oração, em que o eu lírico comporta-se como verdadeiro devoto e observador:
NOSSA SENHORA DO CARMO
600 Série Iniciados v. 23