Série Iniciados Vol. 23 | Seite 597

Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo isolada, como em conjunto. O primeiro apresenta um sentimento solitário no eu lírico ao retratar um nada em sua vida “Este nada de ser.”, assim trazendo uma alusão de que ele esteja “só”. O segundo surge com uma ideia mais voltada ao lado espiritual do eu lírico, “Minha vida cristã.” considerando um sujeito religioso, apresenta algumas características. E, talvez esta dúvida presente em sua vida lhe traga algumas aflições, pois como Montaigne (2010) apresenta em seu ensaio Sobre as orações, existe uma tormenta entre a vida religiosa e a irreligiosa: Essa nova percepção presente no poema expressa um teor subversivo da ideia de confissão, e que se assemelha com os apontamentos de Starobinski (2016) no seu livro A tinta da melancolia, em que o autor discorre sobre o pensamento existencial presente em Kierkegaard. Entre suas considerações, ele chama a atenção para um outro “eu” presente em sua história, que de certa forma dialoga com sua vida, pois em alguns casos, assume determinadas posições. Sobre isto, Starobinski destaca: “Apesar dessa falta de ser, dessa defecção do eu (que o pensamento gnóstico chamaria de uma kénose), um poder persiste, porém, e se exerce livremente: o de constatar e criticar a ausência da plenitude.” (STAROBINSKI, 2016, p. 328). Ora, é exatamente isso que observamos em nosso poema, ou seja, um esvaziamento do ser, diante das conjunturas presentes em sua vida, na qual o eu lírico traz uma ideia solitária diante do seu ato de confissão. E a posição de um homem que mistura a devoção com uma vida execrável parece ser bem mais condenável que a de um homem coerente consigo mesmo e inteiramente dissoluto. Por isso, nossa Igreja recusa todos os dias aos que se obstinam em fazer alguma insigne maldade a favor de admiti-los em sua comunidade. (MONTAIGNE, 2010, p. 182). Completando o sentido do quarto verso, o eu lírico explana sobre sua vida cristã, na qual, se analisada em conjunto com a ideia anterior, subtende-se que ele não possui uma vida religiosa ativa, e que de algum modo isto o incomoda. Existe uma percepção de solidão no eu lírico, norteado por um sentimento de irreligiosidade. São interessantes estas considerações, pois mostram uma contradição no poema, afinal, ele introduz uma possível ideia de não possuir uma vida cristã, porém, no decorrer de todo poema, apresenta algumas preocupações voltadas às questões religiosas, como, por exemplo, o pecado e o próprio sentimento de perdão. Mas é, sobretudo, esta relação de dualidade no poema que demonstra uma dúvida no eu lírico, que, mesmo não se 598 Série Iniciados v. 23 Ora, todas estas considerações apontam para a interioridade do eu lírico, na qual expressa um esvaziamento profundo, tanto religioso, como também, existencial. E, não sendo possível uma relação de diálogo com outra pessoa, ou, com o divino, ele tende-se a perdoar-se dos seus tormentos. Sua declaração se firma em uma situação inusitada de autoconfissão, assim, ocorrendo um perdão antecipado diante das suas declarações, pois ele não esperava julgamentos nem tão pouco retaliações. Na segunda estrofe, o eu lírico reafirma suas ponderações diante do seu sentimento de autoperdão, e apresenta algumas considerações sobre as consequências dos seus atos: 4. Ente o castigo e o perdão 5. Não foi justo nem sábio perdão, 6. Não tive o gesto nem a frase, 7. Extremo valor de juízes O primeiro verso desta estrofe corrobora com outra dualidade presente no poema: o “castigo” e o “perdão”. Aqui, observa-se uma avaliação do eu lírico diante dessas questões, na qual, no verso seguinte, conclui que a punição para seus pecados não foi “justo” e o seu autoperdão não foi a