Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
isolada, como em conjunto. O primeiro
apresenta um sentimento solitário no eu
lírico ao retratar um nada em sua vida “Este
nada de ser.”, assim trazendo uma alusão
de que ele esteja “só”. O segundo surge com
uma ideia mais voltada ao lado espiritual do
eu lírico, “Minha vida cristã.” considerando um sujeito religioso, apresenta
algumas características. E, talvez esta dúvida
presente em sua vida lhe traga algumas
aflições, pois como Montaigne (2010)
apresenta em seu ensaio Sobre as orações,
existe uma tormenta entre a vida religiosa e
a irreligiosa:
Essa nova percepção presente no
poema expressa um teor subversivo da ideia
de confissão, e que se assemelha com os
apontamentos de Starobinski (2016) no seu
livro A tinta da melancolia, em que o autor
discorre sobre o pensamento existencial
presente em Kierkegaard. Entre suas
considerações, ele chama a atenção para
um outro “eu” presente em sua história,
que de certa forma dialoga com sua vida,
pois em alguns casos, assume determinadas
posições. Sobre isto, Starobinski destaca:
“Apesar dessa falta de ser, dessa defecção do
eu (que o pensamento gnóstico chamaria de
uma kénose), um poder persiste, porém, e se
exerce livremente: o de constatar e criticar
a ausência da plenitude.” (STAROBINSKI,
2016, p. 328). Ora, é exatamente isso que
observamos em nosso poema, ou seja, um
esvaziamento do ser, diante das conjunturas
presentes em sua vida, na qual o eu lírico
traz uma ideia solitária diante do seu ato de
confissão. E a posição de um homem que mistura
a devoção com uma vida execrável
parece ser bem mais condenável que
a de um homem coerente consigo
mesmo e inteiramente dissoluto. Por
isso, nossa Igreja recusa todos os dias
aos que se obstinam em fazer alguma
insigne maldade a favor de admiti-los
em sua comunidade. (MONTAIGNE,
2010, p. 182).
Completando o sentido do quarto
verso, o eu lírico explana sobre sua vida
cristã, na qual, se analisada em conjunto
com a ideia anterior, subtende-se que ele
não possui uma vida religiosa ativa, e que
de algum modo isto o incomoda. Existe uma
percepção de solidão no eu lírico, norteado
por um sentimento de irreligiosidade. São
interessantes estas considerações, pois
mostram uma contradição no poema, afinal,
ele introduz uma possível ideia de não possuir
uma vida cristã, porém, no decorrer de todo
poema, apresenta algumas preocupações
voltadas às questões religiosas, como, por
exemplo, o pecado e o próprio sentimento de
perdão.
Mas é, sobretudo, esta relação de
dualidade no poema que demonstra uma
dúvida no eu lírico, que, mesmo não se
598
Série Iniciados v. 23
Ora, todas estas considerações
apontam para a interioridade do eu lírico, na
qual expressa um esvaziamento profundo,
tanto religioso, como também, existencial.
E, não sendo possível uma relação de
diálogo com outra pessoa, ou, com o
divino, ele tende-se a perdoar-se dos seus
tormentos. Sua declaração se firma em uma
situação inusitada de autoconfissão, assim,
ocorrendo um perdão antecipado diante
das suas declarações, pois ele não esperava
julgamentos nem tão pouco retaliações.
Na segunda estrofe, o eu lírico reafirma
suas ponderações diante do seu sentimento
de autoperdão, e apresenta algumas
considerações sobre as consequências dos
seus atos:
4. Ente o castigo e o perdão
5. Não foi justo nem sábio
perdão,
6. Não tive o gesto nem a frase,
7. Extremo valor de juízes
O primeiro verso desta estrofe
corrobora com outra dualidade presente
no poema: o “castigo” e o “perdão”. Aqui,
observa-se uma avaliação do eu lírico diante
dessas questões, na qual, no verso seguinte,
conclui que a punição para seus pecados
não foi “justo” e o seu autoperdão não foi a