Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
6. Não foi justo nem sábio perdão, 7. Não tive o gesto nem a frase, 8. Extremo valor de juízes. 9. Foi um perdão silencioso e humilde.
( CARDOZO, 2007, p. 154).
“ Perdão” integra o grupo dos oito poemas publicados inicialmente na Revista do Norte no período que Joaquim Cardozo fazia parte do grupo editorial por volta da década de 20. Em 1947 este mesmo poema ressurge no primeiro livro de Cardozo intitulado de Poemas.
O poema“ Perdão” apresenta versos livres, distribuídos em três estrofes irregulares: na primeira, contendo quatro versos, o poeta apresenta uma confissão sobre um sentimento de remissão presente em sua vida; na segunda, também contendo quatro versos, mostra-se melancólico diante das conjunturas que norteiam as consequências do seu pecado, ou seja, um vazio perante um perdão cordial sobre seus atos; e, por fim, a última estrofe, contém apenas um verso solitário, que intensifica a melancolia no poema, mostrando o eu lírico solitário e enfatizando as questões referentes ao seu sentimento de confissão diante do possível perdão.
Logo de início, em seu título, o poema já demonstra uma das suas questões cernes, e observando as repetições exaustivas desta palavra nos versos seguintes( v. 1, 5, 6, 9) traz uma ideia constante de interpelação dos seus pecados diante das conjunturas emocionais que o cercam. Vale destacar, também, que para a igreja católica, todo pecado cometido pelo homem merece perdão, e, independentemente da gravidade do erro, a Santa Igreja concebe a absolvição. Além disso, a igreja católica apresenta o que hoje conhecemos como os sete pecados capitais, com o intuito de“ educar” os seus seguidores perante determinadas falhas presente nos homens.
Como vemos, muitas questões norteiam a palavra“ perdão”, e observando alguns versículos bíblicos, como por exemplo, João 1:7-9, o que se apreende é as considerações referentes ao ato da confissão, pois, especialmente nestes versículos destacados, no momento que o homem declara os seus pecados, Jesus Cristo concebe o perdão. É uma forma simples e direta que o homem tem diante da sua igreja, e que aos olhos do divino, compreende-se como um dos pontos essenciais para o surgimento tanto de uma relação com o próprio divino, como também, de um sentimento de alívio que se apresenta no momento que se confessa os seus pesares.
No entanto, contrapondo-se à ideia do perdão divino oriundo da palavra intitulada no título, o eu lírico inicia o poema com o verbo“ perdoar” em primeira pessoa do indicativo, assim, destaca-se não uma confissão referente ao pedido de perdão, mas sim, uma declaração de autoperdão reminiscente das suas falhas.
O segundo verso continua com este sentimento de confissão, na qual o eu lírico complementa com outro incômodo presente em sua vida, que diz respeito a todas as maldades praticadas por ele. Além disso, com o uso da anáfora ele adiciona no terceiro verso outra iniquidade que norteia o seu passado: o sofrimento.
Nota-se nestes três primeiros versos que a palavra“ perdão” surge no poema antes dos pesares presentes em sua vida, ou seja: dos“ pecados”, do“ mal” e do“ sofrimento”. Ora, se observarmos as conjunturas que envolvem o ato de confissão em geral, o poema é regido por um sentimento de culpa, que conduz o sujeito a suplicar por um perdão. Porém, o que se apresenta primeiro é a inversão da linguagem confessional, o eu lírico não revela as suas consternações em busca de uma resposta de piedade ou perdão, mas sim, ele informa um autoperdão.
No entanto, observa-se no quarto verso um dualismo de informações(“ Este nada de ser. Minha vida cristã.”), que devido ao uso do ponto final presente no meio do verso, pode ser visto tanto de maneira
Série Iniciados v. 23
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