Série Iniciados Vol. 23 | 页面 595

Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo disso, é relevante evidenciar algumas outras menções religiosas, principalmente católicas nas suas obras, na qual o sujeito lírico se envolve por completo em uma lírica profunda que evoca diretamente o sagrado, como é o caso, por exemplo, das confissões do sujeito lírico.
Segunda análise:“ Perdão”, o poema confessional
A confissão, como tantas outras conjunturas ligadas à condição humana, envolve primeiramente uma percepção do sujeito que anseia por um período de anistia. Um momento íntimo do seu ego com o mundo que o cerca, e que, em alguns casos, necessita de uma autodepreciação das suas ações diante de algo que o atormenta.
Na literatura ocidental do século XX é constante a presença das confissões na lírica brasileira, a qual mescla entre as confidências individuais e íntimas, e os sentimentos que envolvem a sociedade, que norteiam as ações da vida humana ligadas aos efeitos da degeneração de determinadas tradições. Por outro lado, existem alguns desdobramentos desse sentimento que surge no sujeito sobre seu estado espiritual, ou seja, do perdão divino, oriundo principalmente pela percepção do pecado.
De acordo com Maria Luíza Remédios( 1997) em seu livro Literatura confessional,“ No século XX, diários íntimos, memórias, relatos pessoais, confissões tornam-se produto de consumo corrente, marcados pela crença no indivíduo, pela atitude confessional e pelo objetivo de preservar um capital de vivências, recordações e fatos históricos.”( REMÉDIOS, 1997, p. 09).
Em Joaquim Cardozo, a presença da temática confessional surge em vários dos seus poemas, e esta sensação de confidência que passa a existir no eu lírico apresentase por diversas nuances, chamando a atenção para as ressalvas do sujeito sobre determinado sentimento que o envolve, seja de solidão, como podemos verificar em seu poema“ Versos Curtos”, em que o eu lírico se descreve como o ser mais solitário deste mundo; de extrema confissão do“ eu”, como, por exemplo, em seu poema“ Os mundos paralelos”, no qual o sujeito apresenta dois lados da sua vida; e, o que iremos tratar mais especificamente neste capítulo, as confissões com a presença religiosa, que podemos examinar em seu poema“ Perdão”.
Sobretudo, na maioria desses poemas, destacam-se as reminiscências de um sujeito que se encontra, muitas vezes, em um estado de melancolia, e esta mesma situação que o envolve, irá conduzi-lo em todo o poema. No caso aqui relatado, as confissões estão intimamente ligadas ao teor autobiográfico, e, no caso da poesia cardoziana, percebese certa semelhança de alguns temas com sua vida. É bem característica dos modernos nutrirem em suas obras“ sobre sua própria condição”, questão essa, apontada por Jean Starobinski em seu livro A melancolia diante do espelho.
Se as questões autobiográficas em alguns casos se fundem, torna-se um caminho difícil para traçar apenas uma consideração acerca de determinado assunto, no entanto, será a partir da linguagem utilizada na obra que permitirá identificar indícios que nos permitam compreendê-lo.
Diante desses apontamentos, consideramos neste item a análise do poema“ Perdão” do poeta Joaquim Cardozo, com o intuito de evidenciar este sentimento autobiográfico de confissão tão presente em suas obras. Neste poema, o que se observa inicialmente é seu teor de confidência diante de um sentimento de perdão que o envolve. O eu lírico mostra-se consciente dos seus atos e sobre sua religiosidade, e neste panorama surge uma melancolia constante diante das questões apresentadas por ele, como podemos verificar no poema:
1. Perdoei pelos meus pecados, 2. Pelo mal que fiz também, 3. Pelo sofrimento, 4. Este nada de ser. Minha vida cristã. 5. Entre o castigo e o perdão
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