Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
maneira ecoante na interpelação do sujeito.
A última estrofe contém 10 versos,
é a mais extensa do poema. Aqui o eu lírico
explana acerca de algumas igrejas, padres e
santos da igreja católica. O eu lírico, nesta
estrofe, está totalmente envolvido com as
várias igrejas existentes em Olinda, é como se
cada igreja dessas fosse uma parte de grande
importância para a história dessa cidade.
Estes apontamentos se assemelham
com os pensamentos de Villaça, no qual ele
expõe que “A igreja é uma realidade sujeita
à História. E não uma realidade imóvel.
A igreja não é excêntrica ao mundo. Mas
uma realidade viva, dialógica. Não é uma
estrutura jurídica. Mas uma vida.” (VILLAÇA,
1975, p. 150). É inevitável que cada uma delas
possua sua história, e, talvez, até contribua
para acender a memória de um eu lírico que
se demonstra apaixonado por seu lugar. Para
finalizar o poema o eu lírico destaca:
24 Neste silêncio, neste grande
silêncio,
25 No terraço da Sé,
26 Sentindo a tarde vir do mar,
tão doce e religiosa,
27 Como a alma celestial de S.
Francisco de Assis.
O que se percebe, também, nesta
última estrofe nos versos 24-25 (Neste
silêncio, neste grande silêncio/ No terraço
da Sé), é a ideia que, igual ao verso 5, traz
ao leitor uma sensação que o sujeito lírico
demonstra estar neste local apontado nos
versos no momento em que se desenvolve o
poema.
A igreja da Sé, que já apontamos
anteriormente em relação a sua privilegiada
vista do mar, surge para abrir espaço para os
versos 26-27 (Sentindo a tarde vir do mar,
tão doce e religiosa/ Como a alma celestial de
S. Francisco de Assis.). Aqui, percebe-se certa
suavidade nos versos ao tratar desse santo
conhecido como padroeiro de todos os que se
preocupam com a natureza.
Diante
destas
considerações,
observa-se que ao longo do poema foram
explanadas as diversas questões que
norteiam a cidade de Olinda na visão do
eu lírico, ressaltando o lugar e referências
religiosas da Igreja católica. Aqui se constitui
um poema que mescla o regionalismo forte
de Joaquim Cardozo com questões ligadas a
religiosidade.
Este poema é rico de historicidade das
questões que envolvem a cidade de Olinda,
trazendo vários apontamentos que abarca
diretamente a história da cidade, como
podemos ver ao longo dessa análise. Nesta
perspectiva, o que se observa muitas vezes
neste poema e em outras líricas de Cardozo,
é o surgimento de um eu lírico observador do
ambiente a qual se insere. E, mais do que isso,
pois além de observar ele demonstra certa
reflexão e nostalgia de determinado assunto.
A imagem religiosa católica na
poesia de Joaquim Cardozo é norteada pela
necessidade de representação de conceitos,
tanto referentes à apreciação de igrejas e
santos, como também, pelo aspecto histórico
que envolve a passado de determinado lugar,
que no caso deste poema, trata-se da cidade
de Olinda.
No entanto, no que se referem mais
especificamente as referências religiosas,
Cardozo apresenta, além desses destacados
no poema “Olinda”, algumas menções
que nos remete diretamente aos versículos
bíblicos, como é o caso, por exemplo, do
poema “Filho Pródigo” presente em seu livro
Mundos Paralelos.
Logo pelo título “Filho Pródigo”,
já podemos relacionar com os versículos
presentes em Lucas 15: 11-32. Em suma,
esses versículos apresentam uma parábola
sobre dois irmãos, que um deles pede
antecipadamente parte dos bens que pertence
a ele ao seu pai, e, consequentemente, gasta
tudo e volta-se arrependido ao seu pai, que o
recebe de braços abertos.
Sobre estas considerações, percebem-
se, também, referências bíblicas diretas na
poesia cardoziana, que engloba, em alguns
casos, um sentimento profundo do eu lírico,
como foi o caso do poema citado acima. Além
Série Iniciados v. 23
595