Série Iniciados Vol. 23 | Page 594

Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo maneira ecoante na interpelação do sujeito. A última estrofe contém 10 versos, é a mais extensa do poema. Aqui o eu lírico explana acerca de algumas igrejas, padres e santos da igreja católica. O eu lírico, nesta estrofe, está totalmente envolvido com as várias igrejas existentes em Olinda, é como se cada igreja dessas fosse uma parte de grande importância para a história dessa cidade. Estes apontamentos se assemelham com os pensamentos de Villaça, no qual ele expõe que “A igreja é uma realidade sujeita à História. E não uma realidade imóvel. A igreja não é excêntrica ao mundo. Mas uma realidade viva, dialógica. Não é uma estrutura jurídica. Mas uma vida.” (VILLAÇA, 1975, p. 150). É inevitável que cada uma delas possua sua história, e, talvez, até contribua para acender a memória de um eu lírico que se demonstra apaixonado por seu lugar. Para finalizar o poema o eu lírico destaca: 24 Neste silêncio, neste grande silêncio, 25 No terraço da Sé, 26 Sentindo a tarde vir do mar, tão doce e religiosa, 27 Como a alma celestial de S. Francisco de Assis. O que se percebe, também, nesta última estrofe nos versos 24-25 (Neste silêncio, neste grande silêncio/ No terraço da Sé), é a ideia que, igual ao verso 5, traz ao leitor uma sensação que o sujeito lírico demonstra estar neste local apontado nos versos no momento em que se desenvolve o poema. A igreja da Sé, que já apontamos anteriormente em relação a sua privilegiada vista do mar, surge para abrir espaço para os versos 26-27 (Sentindo a tarde vir do mar, tão doce e religiosa/ Como a alma celestial de S. Francisco de Assis.). Aqui, percebe-se certa suavidade nos versos ao tratar desse santo conhecido como padroeiro de todos os que se preocupam com a natureza. Diante destas considerações, observa-se que ao longo do poema foram explanadas as diversas questões que norteiam a cidade de Olinda na visão do eu lírico, ressaltando o lugar e referências religiosas da Igreja católica. Aqui se constitui um poema que mescla o regionalismo forte de Joaquim Cardozo com questões ligadas a religiosidade. Este poema é rico de historicidade das questões que envolvem a cidade de Olinda, trazendo vários apontamentos que abarca diretamente a história da cidade, como podemos ver ao longo dessa análise. Nesta perspectiva, o que se observa muitas vezes neste poema e em outras líricas de Cardozo, é o surgimento de um eu lírico observador do ambiente a qual se insere. E, mais do que isso, pois além de observar ele demonstra certa reflexão e nostalgia de determinado assunto. A imagem religiosa católica na poesia de Joaquim Cardozo é norteada pela necessidade de representação de conceitos, tanto referentes à apreciação de igrejas e santos, como também, pelo aspecto histórico que envolve a passado de determinado lugar, que no caso deste poema, trata-se da cidade de Olinda. No entanto, no que se referem mais especificamente as referências religiosas, Cardozo apresenta, além desses destacados no poema “Olinda”, algumas menções que nos remete diretamente aos versículos bíblicos, como é o caso, por exemplo, do poema “Filho Pródigo” presente em seu livro Mundos Paralelos. Logo pelo título “Filho Pródigo”, já podemos relacionar com os versículos presentes em Lucas 15: 11-32. Em suma, esses versículos apresentam uma parábola sobre dois irmãos, que um deles pede antecipadamente parte dos bens que pertence a ele ao seu pai, e, consequentemente, gasta tudo e volta-se arrependido ao seu pai, que o recebe de braços abertos. Sobre estas considerações, percebem- se, também, referências bíblicas diretas na poesia cardoziana, que engloba, em alguns casos, um sentimento profundo do eu lírico, como foi o caso do poema citado acima. Além Série Iniciados v. 23 595