Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo como“[...] um transtorno íntimo ligado a um fenômeno de memória.”( STAROBINSKI, 2016, p. 212). Ora, ao observar o verso 9 do poema(“ Ainda vejo as caravelas...”), percebe-se uma ratificação das emoções do eu lírico ao utilizar reticências no final do verso, que ele se submergiu a uma memória do passado tão relevante para nossa história.
Villaça destaca que“ Os jesuítas dominam a paisagem intelectual do Brasil durante dois séculos, desde a chegada no meio do século XVI até a expulsão, no meio do século XVIII, 1759, quatro anos antes da extinção da Companhia.”( VILLAÇA, 1975, p. 19). Foram muitos anos da presença jesuítica no Brasil, e sem dúvidas foram eles os responsáveis por alterar drasticamente a história religiosa do povo brasileiro.
A terceira estrofe contém apenas dois versos que tratam do Observatório que existe próximo a Igreja da Sé em Olinda. Destacase aqui o quanto o eu lírico tem familiaridade com essa cidade, pois consegue descrever os mais diversos lugares existentes naquela região. Na qual, na estrofe seguinte ele destaca:
12 Muros que brincam de esconder moitas, 13 Calçadas que descem cascateando nas ladeiras.
Nestes versos, surge um teor misterioso relacionado aos muros responsáveis por esconder“ moitas”. Ora, ao analisar a história local de Olinda o que se apreende é a arquitetura oriunda do processo de dominação, tanto portuguesa, como também holandesa, na qual foram responsáveis na construção de muros e variadas outras obras com o objetivo voltado a proteção do lugar. Com isso, consequentemente cada construção dessas, tem um intuito de“ esconder” qualquer ponto fraco existente no lugar. No que se refere ao verso 13, o eu lírico ressalta a questão íngreme tão presente nas ruas de Olinda.
Nesta perspectiva, a quinta estrofe surge destacando uma Olinda repleta de portugueses, e pelo uso do enjambement e da anáfora, o eu lírico enfatiza a presença de“ Capitães-mores”,“ jesuítas”,“ Bispos”,“ Doutores em Cânones e Leis”. Desse modo, com o uso exagerado dos polissíndetos o eu lírico demonstra o quanto a cidade de Olinda foi afetada pela chegada dos portugueses ao Brasil, deixando não apenas a sua cultura, mas também uma grande influência na arquitetura de grandes prédios que lá possuem.
Além disso, destacam-se, no verso 15, marcas históricas de Olinda, tanto referentes à arquitetura barroca apontada pelo eu lírico ao descrever Olinda com o“ luxo” e“ esplendor” oriundas do exagero barroco, como também fatos do passado, como ao ser destacado o“ incêndio” que foi recorrente nestas terras com a invasão holandesa. Sobre isto, Nascimento( 2008) destaca: [...] Uma verdadeira“ ferida narcísica” para o orgulho e o amor de seus moradores, que viram a vila ser invadida e destruída por um incêndio. Tempos de guerra e sofrimento de sua população. Período histórico importante, porque foram muitas as batalhas e as mortes entre os lusobrasileiros e os holandeses. Isto está marcado na memória popular e é passado de geração a geração. [...] Foi o período de maiores perdas e de total declínio para Olinda.( NASCIMENTO, 2008, p. 36). Ao analisar a história popular da cidade, questões voltadas aos fantasmas do passado são bastante recorrentes, pois, comporta-se como uma ferida aberta que sempre se apresenta diante do indivíduo. Starobinski( 2016, p. 205) destaca que“ os sentimentos cuja história queremos retraçar só nos são acessíveis a partir do momento em que se manifestaram, verbalmente ou por qualquer outro meio expressivo.” É o que podemos perceber diante dessas manifestações do nosso eu lírico, a partir de representações históricas da sua cidade, ele retoma sentimentos profundos que soam de
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