Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
Nesta perspectiva, relacionando à leitura que fizemos desse verso,“ Das perspectivas estranhas dos conventos”, percebe-se um dos nortes estes apontamentos históricos referentes à região. Assim, destacam-se o tom negativista na história e na arquitetura de alguns conventos dessa cidade, que sofreram os reveses da colonização portuguesa e holandesa.
Continuando o jogo poético, abordaremos as últimas palavras ainda do verso 4(“ do mar”), na qual faz relação com o 3 verso“ Dos imprevistos horizontes”, o qual pode ser lido da seguinte forma:“ Dos imprevistos horizontes do mar”. Geograficamente a cidade de Olinda possui uma grande parte da costa do mar, desse modo, existem diversos locais na cidade que levam para este cenário. Ao apontar esta característica presente em Olinda, o poeta enfatiza questões regionais e, consequentemente, privilégios da cidade.
Na segunda estrofe do poema surgem questões referentes aos jesuítas, que apontam uma das questões históricas mais relevantes na história do Brasil:
05 Olho as palmeiras do velho seminário, 06 O horto dos jesuítas; 07 E neste mar distante e verde, neste mar 08 Numeroso e longo 09 Ainda vejo as caravelas...
Nesta estrofe a questão central é sobre um sentimento nostálgico que envolveu o eu lírico, referente à chegada dos jesuítas pelas caravelas ao Brasil; é importante evidenciar que foram eles que trouxeram o catolicismo para nosso país, além disso, várias igrejas presentes na cidade de Olinda contêm em sua arquitetura os traços oriundos dos portugueses, ou seja, uma arquitetura do século XVI, com fortes influências do barroco português.
A estrofe inicia-se com o verbo“ olhar” na primeira pessoa no presente do indicativo, trazendo a ideia de que o eu lírico se encontra neste ambiente. Sobre estes versos, é necessário explanar sobre os fatores históricos da região, pois o“ velho seminário”, a qual é depositado no verso 5, era antes uma instalação dos jesuítas, como bem aponta Villaça( 1975, p. 31):“ O Seminário de Olinda inaugurou-se a 22 de fevereiro de 1800, mas os estatutos se compuseram ainda em Portugal, em 1798. Ironicamente, o Seminário se instalou no antigo edifício do Colégio dos Jesuítas”. Diante disto, destacase que o poeta se cercou de informações históricas para a constituição das imagens que compõem o poema, e que vão formar a ligação íntima entre o eu lírico e a cidade.
O terceiro verso da segunda estrofe contém uma figura de linguagem conhecida como diácope, pois o eu lírico repete no mesmo verso as palavras“ neste mar”, desse modo enfatizando a imensidão do mar presente em Olinda, e reiterando um sentimento relacionado à memória do sujeito lírico diante do passado da sua cidade. Para finalizar esta estrofe, é utilizado um enjambement com questões referentes às caravelas dos jesuítas, que, como sabemos, foram responsáveis por catequizar e, como conseguinte, fixar o catolicismo no Brasil. Aqui observa-se a questão regional, ou seja, o mar presente na costa de Olinda com a vinda dos jesuítas, pois de certa forma muitas igrejas que foram erguidas nessa cidade por eles, foi graças à visão que o local possui em relação ao acesso para a vista do mar. A igreja da Sé, por exemplo, foi construída em um local que permite um panorama geral das proximidades com o oceano, assim transformando-se em um local estratégico para os jesuítas.
Além disso, nesta estrofe, percebese um estado de melancolia relacionado à nostalgia no eu lírico ao relembrar este momento histórico referente às caravelas dos jesuítas, e esta percepção, muitas vezes, está relacionado ao passado do sujeito, que, neste caso, ao relembrá-lo foi envolvido por este sentimento. Starobinski( 2016) definiu a nostalgia em seu livro A tinta da Melancolia
Série Iniciados v. 23
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