Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
(“Olinda”), também expressa no título. Com
esta repetição, o eu lírico introduz por meio
de um epifonema, uma palavra que sintetiza
de forma contundente os versos seguintes do
poema. Além disso, esta palavra é a questão
cerne, pois tudo que se apresenta discorre
sobre esse lugar.
Na primeira estrofe, o que se destaca
é o jogo de intercâmbios que o poeta utiliza,
pois o verso 4 (“Das ladeiras, dos conventos
e do mar”) pode ser lido como relacionado
aos 3 versos que lhe antecederam. Assim
as primeiras palavras desse verso, “Das
ladeiras”, podem se referir ao primeiro
verso, “Olinda”, em que se leria “Olinda
das ladeiras”. Isto seria condizente com a
quantidade de ladeiras que essa cidade possui,
pois é sabido que grande parte das suas ruas é
de um relevo extremamente irregular, desse
modo, é inevitável a presença de ladeiras na
cidade.
Da mesma foram, a segunda parte do
verso 4, “dos conventos”, pode ser conectado
ao segundo verso, “Das perspectivas
estranhas”, que propiciaria a seguinte
leitura: “Olinda das perspectivas estranhas
dos conventos”. Neste caso, com este novo
aspecto, podemos relacionar diretamente
a questão da arquitetura de alguns prédios
da cidade de Olinda, como, por exemplo,
o Convento de São Francisco que possui
em sua arquitetura uma forte presença
barroca. Dentre as questões fundamentais
presentes na história de Olinda, encontram-
se os apontamentos referentes à invasão dos
holandeses por volta de 1630, que, um ano
após a invasão, este convento teve em sua
estrutura física uma parte destruída por eles.
Cardozo apresenta algumas considerações
acerca dessa invasão dos holandeses, porém
seus apontamentos se voltaram mais para a
cidade de Recife. Vejamos suas ponderações
sobre o assunto:
Se Recife oferecia o porto obrigado
e seguro contra a violência do mar,
não era fácil, dadas as condições
topográficas, estabelecer ali um
sistema de defesa que lograsse
perfeita eficiência contra os ataques
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do inimigo.
Por sua vez, Igarassu e Olinda eram
boas situações estratégicas, mas
ofereciam surgidouros deficientes ou
pouco seguros.
Conquistando o Recife em 1630, os
holandeses não vacilaram em dar
relevância e primazia ao porto, e já
afeitos a trabalhos semelhantes em
sua terra natal, empreenderam a
construção da cidade, cercando-a de
fortalezas. (CARDOZO, 2007, p. 601).
Ora, como podemos perceber os
invasores holandeses até tentaram se fixar
em Olinda, mas como Cardozo assinalou os
pontos estratégicos determinados por eles
para esta cidade não eram suficientemente
seguros, desse modo, se estabeleceram mais
em Recife. Porém, nada disso os impediu de
transfigurar alguns lugares de Olinda, como
foi o caso do Convento de São Francisco.
Joaquim Cardozo, também apresenta
algumas considerações sobre os holandeses
em outro poema dele, intitulado de “Recife
Morto”, como podemos perceber neste
trecho:
[...]
Vindos do mar, do céu...
sonhos!... evocações!...
A invasão! Caravelas no
horizonte!
Holandeses! Vryburg!
Motins. Procissões. Ruído de
soldados em marcha.
(CARDOZO, 2007, p. 162).
São interessantes estes versos do
poema, pois representam bem a visão de
algumas pessoas que presenciaram esta
invasão. Ao evocar a palavra “sonhos” nos
remete a uma ideia feliz da chegada dos
holandeses nestas terras, no entanto, ocorre
imediatamente a quebra desse pensamento
no momento que introduz o verso seguinte
com as palavras “A invasão”, “Motins” e
“soldados em marcha”.