Série Iniciados Vol. 23 | Page 591

Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo (“Olinda”), também expressa no título. Com esta repetição, o eu lírico introduz por meio de um epifonema, uma palavra que sintetiza de forma contundente os versos seguintes do poema. Além disso, esta palavra é a questão cerne, pois tudo que se apresenta discorre sobre esse lugar. Na primeira estrofe, o que se destaca é o jogo de intercâmbios que o poeta utiliza, pois o verso 4 (“Das ladeiras, dos conventos e do mar”) pode ser lido como relacionado aos 3 versos que lhe antecederam. Assim as primeiras palavras desse verso, “Das ladeiras”, podem se referir ao primeiro verso, “Olinda”, em que se leria “Olinda das ladeiras”. Isto seria condizente com a quantidade de ladeiras que essa cidade possui, pois é sabido que grande parte das suas ruas é de um relevo extremamente irregular, desse modo, é inevitável a presença de ladeiras na cidade. Da mesma foram, a segunda parte do verso 4, “dos conventos”, pode ser conectado ao segundo verso, “Das perspectivas estranhas”, que propiciaria a seguinte leitura: “Olinda das perspectivas estranhas dos conventos”. Neste caso, com este novo aspecto, podemos relacionar diretamente a questão da arquitetura de alguns prédios da cidade de Olinda, como, por exemplo, o Convento de São Francisco que possui em sua arquitetura uma forte presença barroca. Dentre as questões fundamentais presentes na história de Olinda, encontram- se os apontamentos referentes à invasão dos holandeses por volta de 1630, que, um ano após a invasão, este convento teve em sua estrutura física uma parte destruída por eles. Cardozo apresenta algumas considerações acerca dessa invasão dos holandeses, porém seus apontamentos se voltaram mais para a cidade de Recife. Vejamos suas ponderações sobre o assunto: Se Recife oferecia o porto obrigado e seguro contra a violência do mar, não era fácil, dadas as condições topográficas, estabelecer ali um sistema de defesa que lograsse perfeita eficiência contra os ataques 592 Série Iniciados v. 23 do inimigo. Por sua vez, Igarassu e Olinda eram boas situações estratégicas, mas ofereciam surgidouros deficientes ou pouco seguros. Conquistando o Recife em 1630, os holandeses não vacilaram em dar relevância e primazia ao porto, e já afeitos a trabalhos semelhantes em sua terra natal, empreenderam a construção da cidade, cercando-a de fortalezas. (CARDOZO, 2007, p. 601). Ora, como podemos perceber os invasores holandeses até tentaram se fixar em Olinda, mas como Cardozo assinalou os pontos estratégicos determinados por eles para esta cidade não eram suficientemente seguros, desse modo, se estabeleceram mais em Recife. Porém, nada disso os impediu de transfigurar alguns lugares de Olinda, como foi o caso do Convento de São Francisco. Joaquim Cardozo, também apresenta algumas considerações sobre os holandeses em outro poema dele, intitulado de “Recife Morto”, como podemos perceber neste trecho: [...] Vindos do mar, do céu... sonhos!... evocações!... A invasão! Caravelas no horizonte! Holandeses! Vryburg! Motins. Procissões. Ruído de soldados em marcha. (CARDOZO, 2007, p. 162). São interessantes estes versos do poema, pois representam bem a visão de algumas pessoas que presenciaram esta invasão. Ao evocar a palavra “sonhos” nos remete a uma ideia feliz da chegada dos holandeses nestas terras, no entanto, ocorre imediatamente a quebra desse pensamento no momento que introduz o verso seguinte com as palavras “A invasão”, “Motins” e “soldados em marcha”.