Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo constante diante de seu estado de confissão. A questão religiosa surge nesta lírica como uma forma individual e reflexiva do eu lírico, mostrando-se nos versos que o compõe uma intensa interpelação do“ eu” diante das suas confidências.
No entanto, será apenas nos sonetos destinados a Nossa Senhora que iremos perceber o teor extremo de devoção na lírica cardoziana. Nesse sentido, destaca-se o terceiro poema analisado neste trabalho, intitulado de“ Nossa Senhora do Carmo”. Aqui o eu lírico se mostra convicto em relação a sua religiosidade e se apresenta como um verdadeiro“ sujeito observador”.
As questões presentes nestes sonetos, e, em especial, o que iremos tratar mais especificamente neste capítulo, estão relacionadas à devoção ligada a um momento íntimo de observação, tanto interior, como exterior que surge em sua volta. Sendo assim, este é um trabalho sobre o intimismo na concepção poética, e como ele se relaciona com os aspectos sociais e históricos de sua época.
Diante deste panorama, utilizamos pressupostos metodológicos da pesquisa bibliográfica em Literatura Brasileira para compreender estes aspectos religiosos presentes na lírica cardoziana, desse modo, destacamos como objetivos específicos as seguintes proposições: 1. discutir as referências regionais e históricas do Catolicismo na lírica cardoziana; 2. investigar os padrões confessionais do sujeito lírico e como isto o incide em um estado melancólico; e 3. analisar como o autor reescreve a forma da oração católica em sua poesia. A hipótese que levantamos é que todas estas questões estão relacionadas a um sentimento íntimo que permeia o eu lírico, e, em alguns casos, está relacionado ao seu estado de melancolia.
Fundamentação teórica
A presença religiosa católica na lírica cardoziana assume características íntimas no eu lírico, o que o levará a se autorretratar como um sujeito contrito e melancólico, em face a um mundo em transformação.
Nesse sentido, o trabalho é conduzido por uma linha teórica que se dedica a discutir a elaboração e os posicionamentos históricos da categoria“ eu lírico”, não como descrita por Friedrich em 1956, em seu renomado livro Estrutura da lírica moderna, que propunha a despersonalização desta poesia. Aqui, pretende-se demonstrar como o eu lírico se posiciona intimamente e historicamente nesta poesia que é incontestavelmente das mais significativas na lírica brasileira moderna.
O corpus da pesquisa, como mencionado anteriormente, foi constituído pelo poema“ Olinda”, com o propósito de discutir sobre algumas referências católicas históricas e regionais presentes na lírica de Cardozo; logo em seguida, analisa-se o poema“ Perdão” para abordar o aspecto confessional no sujeito lírico, assim, buscando compreender sobre este aspecto relevante e bastante presente na obra do autor; por fim, com o intuito de examinar a forma da oração católica na poesia cardoziana, discute-se o soneto“ Nossa Senhora do Carmo”, em que é possível observar as particularidades do eu lírico perante o divino.
Para discutirmos isto, utilizaremos os estudos críticos que norteiam esta temática, e com apontamentos referentes à lírica brasileira moderna, como Antônio Carlos Villaça( 1975); Antonio Candido( 1989); Octavio Paz( 1982); Michel de Montaigne( 2010); Jean Starobinski( 2014; 2016); Friedrich( 1992) e outros.
A relação entre poesia e religião é alvo de várias discussões, que demonstram certa afinidade entre elas. Octavio Paz( 1982), em seu livro O Arco e a lira, apresenta todo um panorama que norteia esta integração: Religião e poesia tendem a realizar de uma vez para sempre essa possibilidade de ser que somos e que constitui nossa própria maneira de ser; ambas são tentativas de abraçar essa“ outridade” que Machado chamava de“ essencial heterogeneidade do ser”. A experiência poética, como a experiência religiosa, é um salto
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