Série Iniciados Vol. 23 | Page 588

Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
mortal: um muda de natureza que é também um regressar à nossa natureza original. [...] Poesia e religião são revelação. Mas a palavra poética não precisa de autoridade divina. A imagem é sustentada em si mesma, sem que seja necessário recorrer nem à demonstração racional nem à instância de um poder sobrenatural: é a revelação de si mesmo que o homem faz a si mesmo.( PAZ, 1982, p. 166). Ora, a revelação é um dos pontos centrais que norteia a poesia e a religião, pois ambas nutrem de uma necessidade que o homem possui em conhece-se. Por outro lado, a poesia apresenta uma imagem que enfatiza certa autonomia em seu discurso, assim tornando-se uma forma de representação do próprio eu. Embora ocorra certa relação entre os dois termos, Octavio Paz também destaca algumas distinções, que para nossa pesquisa assumiu um papel fundamental na compreensão dessas duas manifestações, um sentimento de interioridade do próprio“ eu”: A palavra poética e a palavra religiosa se confundem ao longo da história. Mas a revelação religiosa não constitui – pelo menos na medida em que é palavra – o ato original, e sim sua interpretação. Em contrapartida, a poesia é revelação da sua própria condição e, por isso mesmo, criação do homem pela imagem. A revelação é criação. [...] O ato pelo qual o homem se funda e se revela a si mesmo é a poesia. Em suma, a experiência religiosa e a poética têm uma origem comum; suas experiências históricas – poemas, mitos, orações, exorcismos, hinos, representações teatrais, ritos etc. [...] A religião, porém, interpreta, canaliza e sistematiza a inspiração, dentro de uma teologia, ao mesmo tempo em que as igrejas confiscam seus produtos. A poesia nos abre a possibilidade de ser que todo nascer contém; recria o homem e o faz assumir sua verdadeira condição, que não é a separação vida ou morte, mas uma totalidade: vida e morte num só instante de incandescência.( PAZ, 1982, p. 189-190). Neste panorama, reconhecemos na poesia de Joaquim Cardozo, estas proeminências relacionadas à própria condição da poesia apontadas pelo crítico mexicano.
A poesia brasileira moderna, por sua vez, sofreu várias influências dos movimentos literários, em especial, o da década de 30, na qual, Cardozo foi um dos participantes. Sobre este contexto, as questões religiosas assumem um formato representativo. Antonio Candido( 1989), no texto A Revolução de 30 e a cultura, comenta que, neste período, ocorreram várias manifestações no campo da cultura relacionados aos temas políticos, religiosos e sociais: [...] houve nos anos 30 uma espécie de convívio íntimo entre a literatura e as ideologias políticas e religiosas. Isto, que antes era excepcional no Brasil, se generalizou naquela altura, a ponto de haver polarização dos intelectuais nos casos mais definidos e explícitos, a saber, os que optavam pelo comunismo ou o fascismo. Mesmo quando não ocorria esta definição extrema, e mesmo quando os intelectuais não tinham consciência clara dos matizes ideológicos, houve penetração difusa das preocupações sociais e religiosas nos textos, como viria a ocorrer de novo nos nossos dias em termos diversos e maior intensidade. Naquela altura o catolicismo se tornou uma fé renovada, um estado de espírito e uma dimensão estética.“ Deus está na moda”, disse com razão André Gide em relação ao que ocorria na França e era verdade também para o Brasil.( CANDIDO, 1989, p. 187-188). Candido, neste mesmo texto, ainda enfatiza outro ponto relevante neste período histórico:“ Além do engajamento espiritual e social dos intelectuais católicos, houve na literatura algo mais difuso e insinuante: a busca de uma tonalidade espiritualista
Série Iniciados v. 23
589