Confissões, preces e referências religiosas na poesia de Joaquim Cardozo
verificar no trecho abaixo:
Na poesia de Joaquim Cardozo existe
uma aparente contradição que, se
levada ao plano existencial, chegaria
a ser quase um paradoxo. Quase,
porque, se em alguns momentos de
sua poesia encontram-se elementos
que remetem a uma visão (não
propriamente a uma ideologia)
materialista da existência, em outros
momentos o poeta demonstra aberta
simpatia pelo que eu chamaria de
“ilhas do sobrenatural”. Não que ele
se transporte para a convicção de um
crente; antes, comporta-se como
alguém que de repente é envolvido
pelo sentimento de uma presença –
quem sabe uma reminiscência – a que
se pode dar o nome de devoção. (apud
CARDOZO, 2007, p. 79).
Percebem-se
estas
questões
apontadas por Dantas, em especial, nos
poemas-orações que são destinados a “Nossa
Senhora”. Aqui, destaca-se o sentimento
de devoção presente no eu lírico, trazendo
reflexões intensas diante de uma percepção
que o envolve. Em algumas dessas líricas,
o sujeito lírico mostra-se observador das
questões que o cercam, sejam referentes
a temas católicos históricos e regionais,
como também, questões voltadas as suas
reminiscências mais íntimas.
Embora exista uma complexidade nos
temas religiosos, Joaquim Cardozo mostra-
se intimamente ligado às questões voltadas
a sua cidade natal, Recife, local que, como
apontou Gilberto Freyre em 1967 no texto
“Joaquim Cardozo e o Recife”, motiva uma
poesia atenta à transfiguração dessa cidade:
A poesia mais expressiva desse poeta
autêntico – um dos poetas máximos
da sua geração brasileira – é quase
toda ela marcada pela dor de quem vem
perdendo no passado desfeito de sua
cidade não relíquias dignas apenas de
museus, porém valores merecedores
de serem renovados, ampliados,
desenvolvidos; e nunca devastados
com violência simplista e de todo
substituídos
com
estrangeirices
espúrias. (apud CARDOZO, 2007, p.
63).
Nossa
pesquisa
busca
esta
representatividade das questões católicas
na poesia lírica cardoziana, relacionadas à
sua eminente característica regional. É o que
acontece, por exemplo, no primeiro poema
que iremos analisar: “Olinda”. Aqui, Cardozo
apresenta referências religiosas católicas
intimamente ligadas às questões históricas
e regionais da cidade, sendo, dessa forma,
necessário detalhar todos estes aspectos para
uma compreensão mais efetiva do poema. Tal
texto lírico apresenta uma verdadeira junção
de aspectos regionais com feições religiosas
que resultam em uma lírica profunda e
reflexiva sobre a história de Olinda, cidade
em que Joaquim Cardozo veio a falecer em
1978, aos 81 anos.
De fato, como Merquior em seu
ensaio de 1965 destacou, Joaquim Cardozo é
“[...] um autor estranhamente moderno [...]”
(MERQUIOR, 1965, p. 21). Sua modernidade
emerge não apenas em qualidade estética,
mas também nas diversidades de temas que
o poeta abarca, e não é à toa que este mesmo
crítico irá destacar um aspecto recorrente
em sua poesia: a melancolia. Este aspecto
surge especialmente em alguns poemas
relacionados à confissão, no qual se destaca
o poema “Perdão”, segunda lírica que iremos
analisar neste texto. De acordo com Monteiro
(2004),
“Os poucos versos de “Perdão”,
um poema-oração que opera a
partir de uma prospecção de teor
subjetivo e anímico, tendem para
uma sistematização da perspectiva
religiosa cristã, nem sempre fraterna,
pelo fato de que o sentimento que a
anima não pode ser compartilhado
com outrem, logrando realizar-se
mais na internalização individual que
dela fez o poeta [...] (apud CARDOZO,
2007, p. 73).
É este mesmo aspecto apontado por
Monteiro que iremos discorrer no poema
“Perdão”, que imprime uma melancolia
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