Miles e Flora: a subjetividade infantil em The Turn of the Screw / The Innocents
nessa expressão, visto que nos leva a pelo menos três interpretações: o desejo normal de um garoto que está crescendo e se agradou da primeira experiência com a escola( afinal, na época da novela, só os meninos tinham esse direito e dever), como a tentativa de escapar de Bly e seus fantasmas; ou mesmo como uma possível corrupção e o desejo egoísta de causar mal, como uma das hipóteses do motivo de sua expulsão poderia sugerir.
No capítulo 18, há uma cena em que Miles toca piano para a governanta, e ela expressa, na narração, que muitos encarariam isso com estranheza( com o que ela concorda), pois um garoto daquela idade deveria estar“ chutando uma bola de futebol”( JAMES, 2013, p. 65), o que reforça a natureza precoce e subjetiva do menino. Nesse mesmo momento, Flora é perdida de vista, e é impossível ter certeza se isso foi intencional por parte dos irmãos ou apenas uma triste coincidência, já que Miles sempre gostara de agradar a governanta e possuía um grande talento para a música; e Flora, como uma criança, assumiria possuir liberdade de circular pela casa. Em seguida, descobre-se que Flora está no lago, na condição suspeita de ter ido até lá sozinha, e a governanta a questiona sobre a Srta. Jessel – na verdade, o espírito da falecida governanta. O silêncio e a expressão da menina são interpretados pela narradora como o medo da consequência negativa que pode aguardá-la caso ela revele o que sabe, visto que a governanta crê veementemente que Flora enxerga o fantasma tanto quanto ela( ou mais). Porém, para os leitores, é possível interpretar a reação de Flora como simples medo ou confusão diante da abordagem inesperada sobre uma pessoa morta há muito tempo, sobre a qual nunca se falava.
No último capítulo( 24) não sabemos se Miles de fato viu Peter Quint, embora sua reação tenha sido um pouco menos negativa que a de Flora, que começou a chorar quando abordada sobre o fantasma; Miles parece ao menos tentar compreender a governanta, e não descarta a possibilidade de Jessel e Quint estarem ali.“ Ela está aqui?” – Miles questionou ofegante, enquanto procurava de olhos fechados a direção das minhas palavras. Então, como seu estranho‘ ela’ me fizera vacilar e, num sobressalto, eu repetira, ele exclamou:“ A Senhorita Jessel, a Senhorita Jessel!”( JAMES, 2013, p. 86, tradução nossa). 10“ É ele?” Eu estava tão determinada a ter todas as provas que me tornei gelo para desafiá-lo.“ Quem você quer dizer com ele?”“ Peter Quint – seu demônio!”(...)“ Onde?”( JAMES, 2013, p. 86, tradução nossa). 11 No último trecho, podemos também ressaltar a ambiguidade no original em inglês, onde o vocábulo devil( demônio) é termo comum de dois gêneros, tornando impossível distinguir a quem Miles realmente se referia.
Ainda no último capítulo, a morte de Miles ocorre em outra circunstância misteriosa: ele cai nos braços de sua protetora logo depois que Quint desaparece, levando a governanta a crer em sua própria“ vitória” – que ela havia“ salvo Miles” e que Quint o havia“ perdido”( JAMES, 2013, p. 87) – o que pode ser uma referência a uma possessão, ou simplesmente a influência do sujeito sobre o menino. Porém, ela conclui que Miles está morto, e não podemos saber se Quint tem algo a ver com isso ou se apenas a situação estressante levou Miles a um colapso nervoso mortal.
Conclusões
A princípio, o leitor e o espectador são levados a considerar Miles e Flora, duas personagens infantis como puras e singelas, não apenas pelo fato de serem crianças, mas também pela forma como são apresentadas
10
“‘ Is she here? Miles panted as he caught with his sealed eyes the direction of my words. Then as his strange‘ she’ staggered me and, with a gasp, I echoed it,‘ Miss Jessel, Miss Jessel!’”( JAMES, 2013, p. 86).
11
“’ It’ s he?’ I was so determined to have all my proof that I flashed into ice to challenge him.‘ Whom do you mean by‘ he’?’‘ Peter Quint – you devil!(...)‘ Where?’’”( JAMES, 2013, p. 86).
Série Iniciados v. 23
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