Miles e Flora: a subjetividade infantil em The Turn of the Screw / The Innocents
Se por um lado, temos uma protagonista que sofre certa repressão sexual e ao mesmo tempo apresenta um fascínio apaixonado pelo seu patrão, e posteriormente, pelo menino Miles( que, como já foi dito, possui traços e trejeitos um tanto adultos, fazendo dele um sedutor), por outro, há uma representação da libertinagem e corrupção da mulher recatada, na figura de Miss Jessel.
Levando em conta a dúvida quanto à veracidade das aparições para alguém além da narradora, podemos considerar a possibilidade de um exemplo da teoria de Freud acerca da ressurreição da ideia do“ duplo” pelo ser humano, como projeção do ego, que poderia ocorrer como resultado da repressão sofrida pela personagem, ou mesmo como resultado de sua insegurança e medo de falha, visto que, após as aparições, a governanta sente-se compelida a proteger as crianças, como se fosse sua única esperança.
Logicamente, sendo uma narradorapersonagem, é natural que o leitor seja guiado pelo tratamento e, portanto, pela opinião que a mesma apresenta sobre o que / como acontece, porém, cabe ao leitor considerar as possiblidades que o texto oferece.
A primeira aparição ocorre durante a hora de folga da governanta. Tanto na novela quanto no filme, essa cena é repleta de romantismo. No segundo, ouvimos o canto de O Willow Waly, enquanto Miss Giddens colhe rosas; não sabemos até então se a intenção da canção é indiciar que Flora esteja por perto cantando ou se é apenas parte da trilha sonora. A protagonista sorri, e afasta um arbusto, certamente esperando encontrar algo ou alguém. Na novela, fica bem expresso – uma vez que é seu ponto de vista – que naquele momento a governanta estava fantasiando encontrar uma certa pessoa( seu discurso posterior nos leva a crer que seria seu patrão). No filme, por estar tocando a cantiga de ninar, e pelo fato de a relação com as crianças estar mais aparente do que a relação com o tio nesse momento, o espectador pode imaginar que ela esteja esperando achar a menina. Temos mais uma vez a presença de metonímia visual quando o que ela acaba por ver é uma depredada estátua de um querubim, de cuja boca sai uma barata. Esta é uma imagem grotesca( e demasiado ambígua, principalmente se observarmos que o querubim é representado como uma criança) levando em conta a serenidade do cenário geral, composto de rosas, outras flores, pássaros que cantam e uma – até então – sorridente Deborah Kerr. Diante da cena, Miss Giddens fica séria e a música para completamente, além da câmera mudar para um plano aberto, passando a impressão de que ela está sozinha e um tanto perdida. No livro, a narradora dá ênfase à aparição na torre, mas no filme há um detalhe a mais: ao subir na torre, Miss Giddens encontra ninguém menos que Miles, brincando com alguns pombos. Ele a convence de que não havia ninguém ali, o que nos faz questionar se ele está mentindo ou se a governanta está enganada – duas possibilidades excludentes que levam a interpretações um tanto drásticas: dependendo do caminho que escolhermos, acabaremos por acusar alguém: seja Miles, de não ser um bom menino, ou Miss Giddens, de ser insana.
Acerca disso, cabe trazer aqui o que Bennet e Royle afirmam, quando citam Roland Barthes em uma definição de“ código hermenêutico”, que consiste basicamente na expectativa de que as informações dadas pelo narrador no texto( ao menos uma parte delas) contribuirão de alguma forma para a resolução de enigmas gerados pelos segredos da narrativa, dependendo, porém, da interpretação. Sendo assim, naturalmente o espectador irá esperar que, no decorrer do filme, haverá mais informações relevantes que possibilitarão a escolha do“ caminho certo”( plausível) e que até lá, cabem apenas indagações e suposições.
Tendo isso em mente, além da cena da aparição na torre, é válido mencionar um pequeno detalhe no capítulo três da novela que pode exemplificar como o leitor soma toda a informação que lhe é dada como peças de um quebra cabeça, e ainda pode conduzir a uma opinião acerca de uma das crianças e suas
Série Iniciados v. 23
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