Série Iniciados Vol. 23 | Page 579

Miles e Flora: a subjetividade infantil em The Turn of the Screw / The Innocents
O tema do‘ duplo’ foi abordado de forma muito completa por Otto Rank( 1914). Ele penetrou nas ligações que o‘ duplo’ tem com reflexos em espelhos, com sombras, com os espíritos guardiões, com a crença na alma e com o medo da morte; mas lança também um raio de luz sobre a surpreendente evolução da ideia. Originalmente, o‘ duplo’ era uma segurança contra a destruição do ego, uma‘ enérgica negação do poder da morte’ como afirma Rank; e provavelmente, a alma‘ imortal’ foi o primeiro duplo do corpo( FREUD, 2006, p. 252). Tendo como base o trecho em que a governanta afirma que Quint e Jessel estão usando Miles e Flora para cumprir seus propósitos malignos, provavelmente por meio de possessão ou influência, devemos cogitar também a interpretação do paralelismo Miles / Peter Quint e Flora / Miss Jessel, levando em conta não só a proximidade pessoal entre os personagens, como também suas características em comum: além de haver alguma espécie de amor envolvida em ambos os casos( fraternal no primeiro e sexual no segundo), o homem e o menino representam a dominação masculina, a sedução e a persuasão, enquanto a mulher e a menina mostram a submissão feminina, visto que Jessel estava apaixonada por Quint e Miles é sempre retratado como superior em relação a sua irmã mais nova, especialmente por ser homem.
De acordo com a narradora, o lado perverso de seus protegidos se manifesta em parte por causa da influência sobrenatural, visto que ela acredita que quando Miles e Flora não agem de acordo com sua‘ essência’ de bondade, são os fantasmas que os levam a serem maus.
Se considerarmos a hipótese de que as aparições só acontecem na mente da governanta, podemos sustentá-la com o comentário de Freud( 2006) acerca da ideia do“ duplo” como uma prolongação do ser, ou uma projeção do próprio indivíduo. Em seu estudo, o cientista afirma:
Forma-se ali, lentamente, uma atividade especial, que consegue resistir ao resto do ego, que tem a função de observar e de criticar o eu( self) e de exercer uma censura dentro da mente, e da qual tomamos conhecimento como nossa‘ consciência’. No caso patológico de delírios de observação, essa atividade mental torna-se isolada, dissociada do ego e discernível ao olho do terapeuta. O fato de que existe uma atividade dessa natureza, que pode tratar o resto do ego como um objeto – isto é, o fato de que o homem é capaz de autoobservação – torna possível investir a velha ideia de‘ duplo’ de um novo significado e atribuir-lhe uma série de coisas – sobretudo aquelas coisas que, para a autocrítica, parecem pertencer ao antigo narcisismo superado dos primeiros anos( FREUD, 2006, p. 253). Se analisarmos as personagens da Governanta e o fantasma de Miss Jessel, considerando suas semelhanças e diferenças, sob a ótica de Freud, é possível elaborar que temos aqui um exemplo de projeção de ego: a governanta é a filha mais nova de um clérigo, originária do interior e certamente virgem, visto que foi criada numa tradição cristã e patriarcal e sem muita experiência de mundo( aquele era um de seus primeiros trabalhos como educadora). Miss Jessel tem como pontos em comum ser uma bela jovem de boa família, perfeitamente adequada para o trabalho, com boa educação( tratada por Mrs. Grose como“ uma dama”) e ter um relacionamento próximo com as crianças, especialmente com Flora. No entanto, podemos considerar como principal diferença entre a governanta e Miss Jessel o quesito da moralidade, ou a falta dela: o caso amoroso de Jessel com Peter Quint é o suficiente para que ela seja categorizada como perversa, visto que, além da quebra de padrões da sexualidade para a época, havia ainda a barreira social da hierarquia de classes, que tornava seu relacionamento ainda mais mal visto.
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