Miles e Flora: a subjetividade infantil em The Turn of the Screw / The Innocents
o que sentiu em relação a Flora, cuja beleza
infantil a fez ignorar o que poderia haver
de estranho na casa. Esse sentimento de
conforto pela inocência foi bem traduzido
no filme quando Flora conduz Miss Giddens
pela mão para seu quarto, afirmando que
Mrs. Grose “sempre fecha os olhos no
escuro”, mas que para ela, isso é tolice e ela
própria “sempre mantém os olhos abertos
no escuro”. A conversa segue em meio a risos
descontraídos entre as duas, até a parte em
que Flora indaga sobre o que acontece com a
alma de pessoas ruins quando elas morrem e
questiona se Deus as deixa vagando na terra.
Miss Giddens trata o tema fúnebre como um
puro questionamento de uma criança em sua
inocência, não aparentando levar a pergunta
a sério. É nesse momento que ouvimos o som
estranho, e o ligeiro susto da governanta é
amenizado por Flora, que recomenda que ela
finja que não ouviu.
Ainda tendo como base o trecho de
Freud supracitado, associemo-lo a como a
governanta, após as duas primeiras aparições
na história, foi facilmente convencida de
que o homem que disse ver na torre era o
fantasma de Peter Quint e o vulto da mulher
no lago era o espírito de Miss Jessel, mesmo
que isso desafiasse a lógica ou sem nunca tê-
los conhecido pessoalmente.
Com
o
início
das
aparições
fantasmagóricas (supostamente, o ex-
empregado de Bly, Peter Quint, e a governanta
anterior, Miss Jessel), surgem múltiplos
questionamentos acerca de segredos,
omissões e diversas possíveis interpretações,
que se tornam ainda mais significativas
quando lembramos que os dois “fantasmas”
possuíam vínculos muito fortes com as
crianças. Entre as diversas interpretações
dessas aparições, tratemos aqui das duas
principais: a presença real dos espíritos dos
mortos, ou as mesmas como o fruto de uma
mente perturbada.
Ora, considerando que os fantasmas
na literatura são uma conexão com o passado,
devemos lembrar que o passado que envolve
Bly é algo preferível de se manter no escuro,
levando em conta a suposta imoralidade
e os também supostos comportamentos
reprováveis de Quint e Jessel, que tinham um
caso amoroso proibido.
Acerca de fantasmas, Bennet e
Royle (2004, p. 134) nos dizem que “(...) é
possível traçar uma história dos fantasmas,
bem como pensar na história em si como
fantasmagórica, como algo que pode de
uma forma ou de outra sempre retornar”.
A presença dos fantasmas é essencial para
a construção da ambiguidade na trama de
James, e por que não dizer, para a própria
subjetividade infantil: ao assumirmos que
as aparições narradas pela Governanta são
de fato, “reais” e não apenas um produto de
sua mente, tudo que envolve Miles e Flora
na narrativa deve ser interpretado sob esse
viés, levando em conta a possibilidade de
possessão espiritual, simples influência ou
outros efeitos causados pela assombração.
No entanto, se optarmos por acreditar que
os fantasmas são uma espécie de projeção
psicológica de nossa narradora, as ações
e palavras das crianças ganham uma nova
perspectiva, de que aparentemente não
há nenhum fator externo que as leve a se
comportar de determinada forma. Esses
questionamentos e múltiplas perspectivas
da leitura alimentam a dúvida constante: as
crianças são vítimas ou cúmplices?
Seguindo essa perspectiva, podemos
associar os acontecimentos na narrativa
tanto com a ideia dos fantasmas no século
XIX quanto com a ascensão da psicologia e da
psicanálise. Segundo Bennet e Royle (2004,
p. 134), “podemos perseguir uma história
dos fantasmas em termos da emergência da
psicologia no século XIX, e em particular,
da psicanálise. Fantasmas, então, movem-
se na cabeça de alguém. Ao longo do século
XIX o fantasma é internalizado: torna-se um
sintoma psicológico”.
Portanto, tratando-se de psicanálise,
é pertinente trazer o conceito de Freud acerca
do duplo juntamente com a ideia da presença
dos espíritos em Bly, sendo o fantasma uma
espécie de duplicata que prende a essência
do morto a seu local de vida, possibilitando
assim, uma prolongação de sua existência:
Série Iniciados v. 23
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