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Miles e Flora: a subjetividade infantil em The Turn of the Screw / The Innocents
ela dissera sobre a volta de Miles na véspera, mas a menina a ignora, e comenta que“ uma linda aranha está comendo uma borboleta”.
É interessante observar que, se no livro as impressões da governanta sobre Flora são mais aparentes, na adaptação fílmica o espectador tem mais contato com o recém-introduzido Miles, talvez pelo fato de o primeiro contato de Flora ter sido somado às primeiras impressões da nova governanta com o ambiente, o trabalho e os outros funcionários.
A volta de Miles possui certo destaque: no momento de sua chegada, há um clima de alegria, expectativa e descontração expressa nos sorrisos das personagens e na trilha sonora alegre, e podemos vê-lo interagir mais com Miss Giddens, levando a cena a cumprir seu papel de apresentar as primeiras e positivas impressões a respeito do menino. Porém, a sequência ainda deixa uma nuance de dúvida, quando Miles afirma que“ ansiou pelas férias”, e Miss Giddens estranha, ao reparar que ele parece não saber que fora expulso. Aqui cabe o questionamento acerca de ele ser mesmo inocente ou se poderia ter provocado sua expulsão por ansiar voltar para casa. O menino ignora todas as questões da governanta acerca da escola, e lança-lhe um galanteio, talvez apenas por educação, ou quem sabe, para despistar.
A misteriosa expulsão de Miles da escola pode ser considerada um dos maiores segredos da trama, uma vez que seus motivos permanecem misteriosos até quando o garoto oferece uma pequena explicação sobre o caso, nos capítulos finais da novela e nas últimas cenas do filme. Esse segredo é um dos maiores causadores da ambiguidade em The turn of the screw, visto que, seja qual for a razão da expulsão, talvez ela pudesse explicar o comportamento de Miles: ele é realmente um bom menino que foi injustiçado, ou, de alguma forma, uma pessoa má, sob uma máscara de inocência?
A governanta resolve tirar suas próprias conclusões sobre Miles após a notícia da expulsão e, ao conhecê-lo, ainda nos capítulos iniciais, constata que o ato da escola foi um imenso absurdo, visto que o menino é demasiado bom e só pode ter sofrido uma injustiça. Os dias que passam apenas provam cada vez mais essa ideia, dissipando cada dúvida até que a governanta descarte completamente a possibilidade de as crianças serem capazes de qualquer perversidade. É depois dessa definição que começam as aparições; certamente, Henry James não assumiu essa linearidade no pensamento de sua protagonista por acaso.
A conversa acerca da expulsão de Miles não ocorre na novela até os últimos capítulos. Entrementes, no filme ela acontece, superficialmente, na primeira noite de Miles. Esse diálogo, em especial, também cumpre o papel de aprofundar a relação entre a governanta e o menino, que em sua vulnerável demonstração de sensibilidade( podemos ver as lágrimas de seu intérprete, Martin Stephens) dá um passo à frente na conquista da outra. A subjetividade infantil é bem expressa nesse momento, através da recorrência da metonímia visual: Miss Giddens conforta Miles, que acabara de verter algumas lágrimas em seu leito, e que posteriormente assume uma expressão duramente séria, antecedendo um alto ruído externo da ventania que faz a janela bater e uma chama se apagar. O susto que a cena provoca, bem como o simbolismo da escuridão repentina e a fúria incontrolável da natureza que invade a casa podem conduzir à interpretação de que Miles não está bem, ainda por cima levando em conta sua expulsão da escola( sob a alegação de que ele é uma ameaça para os outros); tal questão fora deixada de lado após uma cena em que ele se mostrou uma criança sensível e solitária, e, portanto, inocente.
Robert Stam explica em seu estudo como certas adaptações focam em determinados aspectos do texto original, ou tratam de sua temática de uma forma peculiar. Isso pode ser observado especificamente nesta cena de The innocents, considerando o maior espaço dado ao sentimento de abandono provocado nas crianças( especialmente Miles) pelo descaso
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