Miles e Flora: a subjetividade infantil em The Turn of the Screw / The Innocents
referência ao tratamento que Henry James dá ao envolvimento de Miles e Flora na trama: no prólogo, quando os personagens do primeiro plano narrativo estão conversando sobre histórias de terror e um deles traz um caso de um garoto que presenciou a aparição de um espírito, os presentes se referem ao ocorrido como“ A turn at the screw”( Uma volta no parafuso). Ao que o personagem de nome Douglas afirma não ser essa a primeira vez que ele ouve sobre crianças envolvidas com espíritos, e diferente da antes mencionada( referida como“ O fantasma de Griffin”, sendo esse o nome do responsável pela história anterior) sua história envolvia não só uma, mas duas crianças, o que leva a todos a atribuírem o caso como sendo“ two turns”( duas voltas). Assim então, é introduzida a narrativa“ propriamente dita”, da história da Governanta, sua relação com as crianças, com Bly e suas assombrações. Portanto, podemos afirmar que a influência de Miles e Flora começa com o nome da novela, visto que essa“ volta no parafuso” ocorre justamente por causa deles e de sua participação no enredo.
Em seu estudo“ O estranho”( 1919; usamos aqui uma edição de 2006), Freud usa como base a palavra alemã“ Unheimlich”, que por si só já é ambígua:“ Por um lado significa o que é familiar e agradável e, por outro, o que está oculto e se mantém fora da vista.”( FREUD, 2006, p. 242-243). Podemos associar essa definição com as crianças da novela, que segundo nos conta a governanta, são boas e agradáveis, porém ao mesmo tempo possuem segredos e um lado sombrio. A narração nos leva a crer, inicialmente, que são como quaisquer crianças, tão inocentes quanto, e talvez até melhores na índole. Elas estudam, brincam, leem e ouvem histórias, tocam e ouvem música e sentem afeto e respeito por sua governanta, incluindo-a nas brincadeiras e exibindo-se para ela com seus conhecimentos. Tal comportamento é suficiente para que a governanta perdoe, ou mesmo ignore um fato que ela descobriu antes mesmo de conhecer o garoto: Miles chega de volta a sua casa, para as férias de verão, mais cedo que o esperado, sem saber que foi expulso do colégio, por razões misteriosas. Sendo a subversão, a ambiguidade e a estranheza características marcantes no texto Gótico e na novela em questão, cabe aqui citar uma das definições de Freud( 2006, p. 239) quando ele afirma que“ algo tem que ser acrescentado ao que é novo e não familiar para torná-lo estranho”. A temática familiar de The turn of the screw tratada nesse tema da pesquisa é a figura da criança: o mundo infantil com toda a sua imagética e características gerais é bastante conhecido, trazendo sempre à nossa mente certos estereótipos e uma expectativa prédeterminada acerca do tema. Sendo assim, Henry James, de fato, traz uma nova nuance sobre esse universo, causando o efeito descrito por Freud e dando, dessa forma, o caráter ambíguo ao texto literário.
O ingrediente que causa a estranheza ao que é familiar em The turn of the screw pode ser considerado o comportamento atípico das crianças, especialmente de Miles: seus modos não são familiares, sendo ele um menino de dez anos que se comporta como um típico cavalheiro; podemos ver isso no livro quando ele frequentemente se refere à protagonista como“ minha querida”, maneirismo típico de um adulto, e no filme, logo em sua primeira aparição, quando chega a Bly e logo após abraçar sua irmã, prontamente entrega flores à nova governanta, perguntando-lhe como vai. Inicialmente, isso é encarado como algo positivo e até belo, porém, posteriormente, suas ações causam estranheza e até provocam o medo( como em Os inocentes, em uma cena em que recita um poema, com uma expressão séria e um tanto taciturna). A respeito disso, cabe novamente citar o trabalho de Freud( 2006, p. 244), quando ele discorre acerca da estranheza gerada pela dúvida em relação a seres que são capazes de agir por si só: fazem isso porque são humanos, ou são algo tão próximo ao ser humano que os faça familiares, mas não humanos de fato? O exemplo no estudo é voltado a objetos que mimetizam o ser humano, como autômatos e bonecos tão bem construídos que causam a estranha impressão de um ser vivo artificial; porém, podemos inserir o fantasma nessa categoria, sendo essa figura a representação
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