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Miles e Flora: a subjetividade infantil em The Turn of the Screw / The Innocents abordados durante a pesquisa, bem como suas discussões serviram de base para essa análise. Introdução à análise Segundo Candido (1976, p. 54), embora o personagem não seja elemento único do romance, “o enredo existe através das personagens; as personagens vivem no enredo.” No mesmo texto, o autor diz ainda que as ideias, os valores e significados de uma história estão atrelados ao enredo e aos personagens, uma vez que estes vivem a ideia, e no caso de The turn of the screw, a ideia vivida e passada pelos personagens, especialmente Miles e Flora, seria condicionada à subjetividade da criança. Os personagens Miles e Flora não só movem o enredo, uma vez que eles são a razão da narradora entrar em suas vidas e escrever sua história (um recurso metaficcional, visto que há uma narração dentro de uma narração), como também contribuem substancialmente para imprimir ambiguidade na construção da trama. Ainda trazendo como base o texto de Candido (1976), temos a questão da verossimilhança para justificar como isso se dá, inicialmente, pelo simples fato dos dois serem crianças: O problema da verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser fictício, isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da mais lídima verdade existencial. Podemos dizer, portanto, que o romance se baseia (...) num certo tipo de relação entre o ser vivo e o ser fictício, manifestada através da personagem, que é a concretização deste (CANDIDO, 1976, p. 55). A “verdade existencial” que podemos encontrar representada nas personagens infantis da novela é que uma criança costuma trazer a ideia inicial de inocência, pureza e vulnerabilidade, traços estes que podemos observar na obra de James e no filme de Clayton. Inclusive, é válido observar o título do filme, The innocents/Os inocentes, referente a Miles e Flora, sendo a inocência o principal traço atribuído a eles. Outra passagem em que podemos ver essa qualidade, na novela, é na fala do personagem Douglas, descrita abaixo e encontrada no prólogo: Concordo inteiramente – a respeito do fantasma de Griffin, fosse ele o que fosse – que o fato de ter aparecido primeiro a um menino de tão pouca idade lhe dá uma característica particular. Mas essa não é a primeira ocorrência desse tipo encantador que envolva uma criança, ao que eu saiba. Se uma criança faz dar outra volta ao parafuso, o que diriam vocês de duas crianças? (JAMES, 2013, p. 1, tradução nossa) 3 . No momento dessa fala, os personagens da primeira camada narrativa (que acontece antes da história central) estão trocando histórias perturbadoras, e haviam acabado de concluir que situações de aparições de vultos (ou mesmo de mortos, no caso, fantasmas) possuem um teor mais alto de terror quando envolvem uma criança, e Douglas, após criar uma atmosfera de suspense e fazer seus ouvintes esperarem mais dois dias, afirma ter ouvido uma história que envolve não só uma, mas duas crianças, questionando, em seguida, o que pensar de tal circunstância, visto que os outros presentes – e possivelmente, o próprio leitor – já tinham a opinião de que é muito mais chocante que alguém tão jovem tenha uma experiência tão aterrorizante. Bennet e Royle (2004, p. 271) afirmam que a narrativa em si é um processo de descoberta e revelação. Visto que toda história possui segredos de alguma espécie, é a fim de descobri-los que continuamos lendo. Devido a isso, é natural que o leitor espere -I quite agree – in regard to Griffin’s ghost, or whatever it was – that its appearing first to the little boy, at so tender an age, adds a particular touch. But it’s not the first occurrence of its charming kind that I know to have involved a child. If the child gives the effect another turn of the screw, what do you say to TWO children?” (JAMES, 2013, p. 1). 3 572 Série Iniciados v. 23