Miles e Flora: a subjetividade infantil em The Turn of the Screw / The Innocents
e sua relação com o ambiente e demais personagens, na medida que os dois contribuem para o teor ambíguo da narrativa.
Fundamentos teórico-metodológicos
Dentre os textos teóricos que embasam a pesquisa, encontram-se materiais sobre o Gótico, do livro The Gothic, de David Punter: Civilization and the goths, Science, industry and the goths; Victorian gothic; Gothic and decadence; Henry James; James, The turn of the screw; The monster; Persecution and paranoia e The uncanny. A obra de Punter me foi essencial para que eu pudesse compreender melhor o conceito de Gótico, em sua história e detalhes e em como a obra de James se insere nesse contexto. Trabalhamos também com textos de teoria literária, a exemplo de How to read literature, de Terry Eagleton, e An introduction to literature, criticism and theory, de Andrew Bennet e Nicholas Royle. Embora todos os textos tenham sido importantes e informativos, esses últimos foram especialmente pertinentes ao corpus do trabalho, uma vez que esses tópicos estão presentes na narrativa Gótica e na obra central da pesquisa. Também fizemos a leitura do conto Transformation, de Mary Shelley, seguido de análise e discussão, de forma a aprofundar nosso conhecimento acerca da literatura Gótica, especialmente no quesito de subversão, monstruosidade, estranheza e ambiguidade. O conto narra a história de um jovem rico, belo e nobre que acaba perdendo tudo, tanto seus bens materiais como a mão de sua amada; em seu desespero, acaba fazendo um pacto com um demônio a fim de recuperar suas perdas, trato este que consiste em ceder sua beleza e juventude em troca de poder e posses. A leitura deste conto, junto ao estudo dos textos supracitados, ajudou com a formação da ideia de“ monstro” atrelada ao jogo de oposições entre o feio e o belo, o bom e o mau, e a visão que a sociedade tem desses conceitos. Essa parte da pesquisa me permitiu observar a subversão e a ambiguidade presentes em outro texto Gótico além de The turn of the screw.
Outro texto bastante esclarecedor a respeito do monstruoso foi o trabalho de Célia Magalhães sobre o tema, intitulado Os monstros e a questão racial na narrativa modernista brasileira, que explora o tema do que não é familiar( a relação eu / outro) e os sentimentos que o“ fora do normal” imprimem na narrativa de ficção, tais como medo, desejo e paranoia.
Tanto o estudo de Magalhães como o conto de Shelley e a novela de James foram abordados no decorrer do trabalho de um ponto de vista não apenas literário, mas também psicológico. O estranho, um estudo de Sigmund Freud, foi lido e discutido durante a pesquisa, o que contribuiu, de modo substancial, com a elaboração das possíveis interpretações da obra de James.
Em grande parte, o caráter ambíguo de The turn of the screw existe pelo fato de a história ser contada do ponto de vista da narradora, a governanta de Miles e Flora, e por essa narração ser naturalmente carregada de impressões, dúvidas, conjecturas, questionamentos; deste modo, acabamos tendo contato com o interior psicológico da personagem.
O texto de Freud também contribuiu com a compreensão dos personagens e em suas relações, tanto da governanta com as crianças, como das mesmas com os“ fantasmas”.
Todos esses textos foram lidos e discutidos nas reuniões, sempre em paralelo com a novela e com nossos planos de pesquisa. Durante as discussões, podíamos tirar dúvidas acerca do projeto em si( algo que fiz com bastante frequência, visto que essa é minha primeira pesquisa), do tema e de especificidades dos textos vistos, e também trocávamos ideias a respeito dos nossos planos, podendo, dessa forma, entrar em contato com o objeto de estudo dos outros pesquisadores.
Na segunda parte da pesquisa, fomos orientados a assistir ao filme Os Inocentes, a fim de discutir a adaptação e observar de que forma a ambiguidade é retratada na obra fílmica. Naturalmente, os textos
Série Iniciados v. 23
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