Estratégias semântico-argumentativas e enunciativas em charges sobre o processo de impeachment
que fala. Para provar isso, o linguista analisa
exemplos de enunciados em que o sujeito
falante traz no seu discurso a voz de outro
sujeito.
Exemplo 06:
Ontem na aula eu ouvi quando a
professora disse: “estudem, pois amanhã
teremos prova”.
No exemplo 06, encontramos uma
ocorrência explícita de polifonia, uma vez
que o sujeito falante (L1 – locutor 01) ao
relatar uma experiência vivenciada “ontem
na aula eu ouvi quando a professora disse:
‘estudem, pois amanhã teremos prova’”
traz a voz de outro sujeito, a professora (L2
– locutor 02), para dentro do seu enunciado
“estudem, pois amanhã teremos prova”;
assim, é possível observar a introdução de
duas falas dentro de um mesmo enunciado,
as quais são atribuídas a diferentes sujeitos
(L1 e L2), sendo L1 aquele que traz a voz de L2
e também se responsabiliza pelo enunciado
desse segundo locutor.
Ducrot a partir de observações feitas
em alguns gêneros textuais escritos, como
no caso de alguns documentos, constatou
que o sujeito da enunciação pode atuar com
três funções distintas: Locutor (L), sujeito
empírico (SE) e enunciador (E). O locutor
(L) é o sujeito responsável pelo discurso ou
por partes dele, podendo ser identificados
por alguns elementos dêiticos; Ducrot diz
que o locutor é tido como alguém “a quem
se deve imputar a responsabilidade deste
enunciado. É a ele que se refere o pronome
eu e as outras marcas de 1° pessoa”. (1987,
p. 182) O sujeito Empírico (SE), como Ducrot
(1988) define, é o autor efetivo, o produtor
do enunciado escrito ou oral. Muitas vezes
o sujeito empírico pode coincidir com o
locutor do enunciado, sendo, ao mesmo
tempo, o produtor (SE) e o responsável pelos
enunciados (L); se atentarmos novamente ao
exemplo 1 veremos que nesse caso o sujeito
empírico (SE) que produziu empiricamente o
enunciado quer por meio verbal ou escrito é
o mesmo indivíduo que se responsabiliza por
todo o discurso (L1) identificado pela marca
dêitica eu. Todavia, como Ducrot nos alerta,
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Série Iniciados v. 23
em alguns casos o SE e o L não coincidem.
Tomemos, por exemplo, a assinatura de
um cheque bancário que é formulado com
um padrão específico por uma determinada
organização ou instituição financeira,
mas que será materialmente assinado
por um determinado indivíduo que se
responsabilizará pela transação bancária que
deverá ser efetuada através daquele cheque,
logo, há um claro distanciamento entre o
sujeito empírico e o locutor do enunciado.
Ducrot (1988) diz que não é responsabilidade
do linguista determinar o SE, o linguista deve
se preocupar com o sentido do enunciado
(locutores e enunciadores) e não as condições
externas de sua produção (sujeito empírico).
O autor ainda afirma que, em um
enunciado, podemos encontrar vários pontos
de vistas ou enunciadores:
En la teoría de la polifonía, por el
contrario, el enunciado presenta una
multitud de puntos de vista diferentes
y el locutor toma una multitud de
actitudes en relación con esos puntos
de vista. ((1988 : p. 68)
Os
enunciadores,
portanto,
correspondem aos pontos de vista que o
locutor coloca em seu discurso, sempre
assumindo algum tipo de posicionamento a
respeito desses enunciadores.
Ducrot fala em dois tipos de polifonia
- de locutores e de enunciadores. A polifonia
de locutores ocorre quando há cruzamento
de vozes de diferentes sujeitos, ou como
Nascimento diz ocorre quando “no discurso
relatado [...] encontram-se pelo menos dois
locutores distintos” (2009:23); retomando o
exemplo 06, observamos a ocorrência desse
fenômeno, visto que temos as vozes de dois
locutores “distintos e irredutíveis”:
(L1 = eu, locutor responsável por todo o
enunciado;
L2 = professora).
Exemplos de polifonia de locutores
ocorrem também no discurso relatado
através de citações e na argumentação por
autoridade. Sobre o discurso relatado, Ducrot
afirma que este “procura reproduzir na