Série Iniciados Vol. 23 | Page 555

Estratégias semântico-argumentativas e enunciativas em charges sobre o processo de impeachment que fala. Para provar isso, o linguista analisa exemplos de enunciados em que o sujeito falante traz no seu discurso a voz de outro sujeito. Exemplo 06: Ontem na aula eu ouvi quando a professora disse: “estudem, pois amanhã teremos prova”. No exemplo 06, encontramos uma ocorrência explícita de polifonia, uma vez que o sujeito falante (L1 – locutor 01) ao relatar uma experiência vivenciada “ontem na aula eu ouvi quando a professora disse: ‘estudem, pois amanhã teremos prova’” traz a voz de outro sujeito, a professora (L2 – locutor 02), para dentro do seu enunciado “estudem, pois amanhã teremos prova”; assim, é possível observar a introdução de duas falas dentro de um mesmo enunciado, as quais são atribuídas a diferentes sujeitos (L1 e L2), sendo L1 aquele que traz a voz de L2 e também se responsabiliza pelo enunciado desse segundo locutor. Ducrot a partir de observações feitas em alguns gêneros textuais escritos, como no caso de alguns documentos, constatou que o sujeito da enunciação pode atuar com três funções distintas: Locutor (L), sujeito empírico (SE) e enunciador (E). O locutor (L) é o sujeito responsável pelo discurso ou por partes dele, podendo ser identificados por alguns elementos dêiticos; Ducrot diz que o locutor é tido como alguém “a quem se deve imputar a responsabilidade deste enunciado. É a ele que se refere o pronome eu e as outras marcas de 1° pessoa”. (1987, p. 182) O sujeito Empírico (SE), como Ducrot (1988) define, é o autor efetivo, o produtor do enunciado escrito ou oral. Muitas vezes o sujeito empírico pode coincidir com o locutor do enunciado, sendo, ao mesmo tempo, o produtor (SE) e o responsável pelos enunciados (L); se atentarmos novamente ao exemplo 1 veremos que nesse caso o sujeito empírico (SE) que produziu empiricamente o enunciado quer por meio verbal ou escrito é o mesmo indivíduo que se responsabiliza por todo o discurso (L1) identificado pela marca dêitica eu. Todavia, como Ducrot nos alerta, 556 Série Iniciados v. 23 em alguns casos o SE e o L não coincidem. Tomemos, por exemplo, a assinatura de um cheque bancário que é formulado com um padrão específico por uma determinada organização ou instituição financeira, mas que será materialmente assinado por um determinado indivíduo que se responsabilizará pela transação bancária que deverá ser efetuada através daquele cheque, logo, há um claro distanciamento entre o sujeito empírico e o locutor do enunciado. Ducrot (1988) diz que não é responsabilidade do linguista determinar o SE, o linguista deve se preocupar com o sentido do enunciado (locutores e enunciadores) e não as condições externas de sua produção (sujeito empírico). O autor ainda afirma que, em um enunciado, podemos encontrar vários pontos de vistas ou enunciadores: En la teoría de la polifonía, por el contrario, el enunciado presenta una multitud de puntos de vista diferentes y el locutor toma una multitud de actitudes en relación con esos puntos de vista. ((1988 : p. 68) Os enunciadores, portanto, correspondem aos pontos de vista que o locutor coloca em seu discurso, sempre assumindo algum tipo de posicionamento a respeito desses enunciadores. Ducrot fala em dois tipos de polifonia - de locutores e de enunciadores. A polifonia de locutores ocorre quando há cruzamento de vozes de diferentes sujeitos, ou como Nascimento diz ocorre quando “no discurso relatado [...] encontram-se pelo menos dois locutores distintos” (2009:23); retomando o exemplo 06, observamos a ocorrência desse fenômeno, visto que temos as vozes de dois locutores “distintos e irredutíveis”: (L1 = eu, locutor responsável por todo o enunciado; L2 = professora). Exemplos de polifonia de locutores ocorrem também no discurso relatado através de citações e na argumentação por autoridade. Sobre o discurso relatado, Ducrot afirma que este “procura reproduzir na