Tradução, história e desigualdades literárias:a literatura brasileira traduzida em Inglês
A observação do quadro revela a
presença de Machado de Assis com duas
traduções (“O alienista/The Alienist and Other
Stories”
e
“Ressurreição/Resurrection”),
correspondendo a um interesse recentemente
despertado no público restrito (academia)
de alguns sistemas literários pela obra do
mais célebre escritor brasileiro. Percebem-
se também as presenças de Jorge Amado e
Rubem Fonseca, autores cuja recepção no
exterior está bastante ligada a estereótipos
comumente associados ao Brasil: a ideia de
um país sensual e exótico (Amado), quando
não violento (Fonseca). Referindo-se aos
quatro primeiros anos da década de 2000,
Gomes (2005) discute essa questão nos
seguintes termos:
A imagem do Brasil rural, pobre,
ou do Brasil sensual e tropical, ou
místico e exótico, que era forte a
ponto de nortear a escolha de editores
estrangeiros interessados em publicar
traduções de obras brasileiras, pode
estar menos nítida nos dias de hoje. No
entanto, sem que ela tenha se apagado
completamente, vimos surgir uma
outra imagem estereotipada, desta
vez refletindo a cidade brasileira –
particularmente Rio de Janeiro e São
Paulo –, a condição miserável da vida
nas favelas, a corrupção e o crime, por
exemplo, enquanto ficam esquecidos
ou relegados a um público restrito
autores importantes da literatura
brasileira contemporânea (GOMES,
2005, p. 93-94).
E são justamente esses “autores
importantes
da
literatura
brasileira
contemporânea” que predominam no
quadro relativo ao ano de 2013, com a
presença de um bom número de escritores
vivos já estabelecidos no campo literário
nacional (voltaremos a essa questão), tais
como Alberto Mussa, Chico Buarque, Ignácio
de Loyola Brandão, João Paulo Cuenca e
Cristóvão Tezza. Percebe-se, na esteira
do que constatou Gomes em seu estudo,
uma retração em relação a autores cujas
obras estão associadas a um Brasil místico
e exótico, em favor de títulos que afirmam
um Brasil contemporâneo mais diverso. Esse
movimento – constatado aqui em relação
ao ano de 2013, mas que se confirma para
o período estudado, conforme veremos a
seguir –, é de grande importância para a
representação das identidades culturais
brasileiras no contexto do polissistema
literário aqui analisado, o dos Estados
Unidos. Observe-se ainda que a maior parte
desses escritores (8 de um total de 11) foram
publicados por editoras acadêmicas e/
ou independentes como a Hackett, a Tagus
Press, a Latin American Literary Review e a
Dalkey Archive Press, o que significa dizer
que a recepção deles se dá no circuito de
circulação restrito – trata-se aqui de uma das
características das condições de circulação
das literaturas traduzidas das línguas ditas
periféricas ou menores.
Autores mais traduzidos
Voltando nossa atenção para o
período como um todo, os catorze autores
mais traduzidos foram: Paulo Coelho, Luiz
Alfredo Garcia-Roza, Clarice Lispector,
Jorge Amado, Machado de Assis, Ignácio
de Loyola Brandão, Moacyr Scliar, Adriana
Lisboa, Rubem Fonseca, Carlos Drummond
de Andrade, Chico Buarque, Hilda Hilst, João
Almino e Luis Fernando Verissimo (Gráfico
2). Percebe-se, por um lado, a diversidade
de autores mencionada anteriormente,
cobrindo diferentes tendências da produção
literária brasileira contemporânea. Cabe
chamar a atenção para a posição ocupada
por Paulo Coelho como o escritor brasileiro
mais traduzido, seguido por Luiz Alfredo
Garcia-Roza, autor de romances policiais.
Por tratarem temas místicos universais, as
obras de Paulo Coelho, ainda que inscritas
no circuito de grande circulação e consumo,
não reforçam estereótipos associados à
cultura brasileira. Os romances policiais
de Luiz Alfredo Garcia-Roza, por sua vez,
podem ser associados ao recente estereótipo
da violência urbana nas grandes capitais
brasileiras. Por outro lado, chama a atenção
a disparidade existente entre o número de
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