Série Iniciados Vol. 23 | Page 542

Tradução, história e desigualdades literárias:a literatura brasileira traduzida em Inglês A observação do quadro revela a presença de Machado de Assis com duas traduções (“O alienista/The Alienist and Other Stories” e “Ressurreição/Resurrection”), correspondendo a um interesse recentemente despertado no público restrito (academia) de alguns sistemas literários pela obra do mais célebre escritor brasileiro. Percebem- se também as presenças de Jorge Amado e Rubem Fonseca, autores cuja recepção no exterior está bastante ligada a estereótipos comumente associados ao Brasil: a ideia de um país sensual e exótico (Amado), quando não violento (Fonseca). Referindo-se aos quatro primeiros anos da década de 2000, Gomes (2005) discute essa questão nos seguintes termos: A imagem do Brasil rural, pobre, ou do Brasil sensual e tropical, ou místico e exótico, que era forte a ponto de nortear a escolha de editores estrangeiros interessados em publicar traduções de obras brasileiras, pode estar menos nítida nos dias de hoje. No entanto, sem que ela tenha se apagado completamente, vimos surgir uma outra imagem estereotipada, desta vez refletindo a cidade brasileira – particularmente Rio de Janeiro e São Paulo –, a condição miserável da vida nas favelas, a corrupção e o crime, por exemplo, enquanto ficam esquecidos ou relegados a um público restrito autores importantes da literatura brasileira contemporânea (GOMES, 2005, p. 93-94). E são justamente esses “autores importantes da literatura brasileira contemporânea” que predominam no quadro relativo ao ano de 2013, com a presença de um bom número de escritores vivos já estabelecidos no campo literário nacional (voltaremos a essa questão), tais como Alberto Mussa, Chico Buarque, Ignácio de Loyola Brandão, João Paulo Cuenca e Cristóvão Tezza. Percebe-se, na esteira do que constatou Gomes em seu estudo, uma retração em relação a autores cujas obras estão associadas a um Brasil místico e exótico, em favor de títulos que afirmam um Brasil contemporâneo mais diverso. Esse movimento – constatado aqui em relação ao ano de 2013, mas que se confirma para o período estudado, conforme veremos a seguir –, é de grande importância para a representação das identidades culturais brasileiras no contexto do polissistema literário aqui analisado, o dos Estados Unidos. Observe-se ainda que a maior parte desses escritores (8 de um total de 11) foram publicados por editoras acadêmicas e/ ou independentes como a Hackett, a Tagus Press, a Latin American Literary Review e a Dalkey Archive Press, o que significa dizer que a recepção deles se dá no circuito de circulação restrito – trata-se aqui de uma das características das condições de circulação das literaturas traduzidas das línguas ditas periféricas ou menores. Autores mais traduzidos Voltando nossa atenção para o período como um todo, os catorze autores mais traduzidos foram: Paulo Coelho, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Clarice Lispector, Jorge Amado, Machado de Assis, Ignácio de Loyola Brandão, Moacyr Scliar, Adriana Lisboa, Rubem Fonseca, Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque, Hilda Hilst, João Almino e Luis Fernando Verissimo (Gráfico 2). Percebe-se, por um lado, a diversidade de autores mencionada anteriormente, cobrindo diferentes tendências da produção literária brasileira contemporânea. Cabe chamar a atenção para a posição ocupada por Paulo Coelho como o escritor brasileiro mais traduzido, seguido por Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor de romances policiais. Por tratarem temas místicos universais, as obras de Paulo Coelho, ainda que inscritas no circuito de grande circulação e consumo, não reforçam estereótipos associados à cultura brasileira. Os romances policiais de Luiz Alfredo Garcia-Roza, por sua vez, podem ser associados ao recente estereótipo da violência urbana nas grandes capitais brasileiras. Por outro lado, chama a atenção a disparidade existente entre o número de Série Iniciados v. 23 543