Tradução, história e desigualdades literárias:a literatura brasileira traduzida em Inglês
seja, os modelos de comunicação humana
regidos por signos (tais como a cultura, a
linguagem, a literatura, a sociedade), podem
ser entendidos e estudados de modo mais
adequado se os consideramos como sistemas,
mais que como conglomerados de elementos
díspares, converteu-se em uma das ideias
diretrizes do nosso tempo na maior parte das
ciências humanas e sociais” (EVEN-ZOHAR,
1990, p. 1).
Nesse sentido, pode ter lugar um
movimento no qual certa unidade (elemento,
função) transfira-se da periferia de um
sistema à periferia do sistema adjacente
dentro do mesmo polissistema, e, nesse
caso, poderá continuar a se mover, ou não,
até o centro do segundo. Repertórios de
sistemas centrais, portanto, podem perder
prestígio, ser esquecidos ou substituídos por
novos repertórios ou mesmo por repertórios
marginais que se consagraram e migraram
para o centro. Segundo Even-Zohar (1990),
a literatura traduzida tanto pode ter uma
função renovadora no polissistema de
chegada – ocupando uma posição central
e influenciando diretamente a formação
do centro daquele sistema alvo –, como
pode manter-se em posição periférica,
adequando-se às normas dominantes,
num papel conservador – caso da literatura
brasileira no atual polissistema literário
estadunidense.
Outro aspecto que nos interessa,
sobremaneira diz respeito às relações de
poder nas quais o processo tradutório
se insere. Partindo do princípio de que a
tradução “é, certamente, uma reescritura
de um texto original”, Susan Bassnett e
André Lefevere chamam a atenção para a
dimensão ideológica que toda reescritura
traz consigo, pois, “qualquer que seja sua
intenção, [toda reescritura] reflete uma
certa ideologia e uma poética e, como tal,
manipula a literatura para que ela funcione
dentro de uma sociedade determinada e de
uma forma determinada.” (LEFEVERE, 2007,
p.11). Em suma, buscaremos entender o que
guia a escolha das obras a serem traduzidas
no sistema norte-americano, pois como
afirmam Bassnett e Lefevere, “[r]eescritura
é manipulação, utilizada a serviço do poder,
e em seu aspecto positivo pode ajudar no
desenvolvimento de uma literatura e de
uma sociedade” (LEFEVERE, 2007, p.11).
Ressalvamos, no entanto, que essa prática
pode ser verificada não apenas na tradução,
mas em um complexo sistema de reescrituras,
tais como edição, antologização, compilação
de histórias da literatura e obras de referência,
além de todo tipo de crítica.
Para nos determos no período
de quinze anos a que nos propusemos,
iniciamos a discussão com a retomada de
fatos importantes observados por outros
estudos relativos a décadas anteriores,
trazendo, dessa forma, elementos históricos
para nossa análise. Buscamos, com isso, dar
continuidade, nos limites de um projeto de
iniciação científica, a trabalhos dedicados
ao tema da literatura brasileira traduzida
para o inglês. Nesse intuito, detemo-nos
aqui no estudo de Maria Lúcia Santos Daflon
Gomes (2005), que dá seguimento a pesquisa
anterior de Heloísa Gonçalves Barbosa (1994)
A dissertação de Mestrado de Maria Lúcia
Santos Daflon Gomes, orientada pela Profª
Márcia do Amaral Peixoto Martins, tem
como foco a literatura brasileira traduzida
para o inglês (Estados Unidos e Inglaterra),
e se fundamentou em uma análise do perfil
das obras em tradução dentro de um período
de quatorze anos (1990-2004). Seu estudo
também abordou aspectos do mercado
editorial do período, seu crescimento, sua
profissionalização e o fortalecimento do papel
do agente literário no fomento da tradução
de obras brasileiras. A partir das análises
realizadas, sua conclusão abordou aspectos
relacionados à recepção das obras brasileiras,
tanto no nível mercadológico como no nível
acadêmico, e à representação de identidades
culturais brasileiras, especialmente no que
diz respeito ao ambiente urbano.
Maria Lúcia Gomes teve como
motivação para o seu estudo a leitura da
tese de Doutorado de Heloisa Gonçalves
Barbosa (defendida em 1994 na Universidade
de Warwick, Inglaterra, sob o título The
Série Iniciados v. 23
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