Série Iniciados Vol. 23 | Seite 537

Tradução, história e desigualdades literárias:a literatura brasileira traduzida em Inglês financiamento de projetos tradutórios no longo prazo (até 2020), podendo participar editoras estrangeiras interessadas em “difundir a cultura e a literatura brasileiras no exterior”, a partir de bolsas de tradução nas áreas de literatura e de humanidades (FBN, 2011). Ainda segundo Dantas (2018), o que muda com os editais a partir de 2011 é a perenidade dessas iniciativas, sua amplitude, bem como a maior agilidade na concessão do apoio e o volume dos recursos destinados à totalidade dos programas. Cabe destacar, ainda, uma série de eventos literários internacionais, que conferiram ao Brasil um lugar de destaque como país homenageado: Feira do Livro de Bogotá (2012), de Frankfurt (2013), de Caracas (2014), Feira do Livro Infantil de Bolonha (2014), Salão do Livro de Paris (2014). Em que pesem tais iniciativas, seus efeitos passam pelo prisma do espaço internacional de circulação das obras traduzidas, marcado por assimetrias, desde que s ujeito a refrações de ordem econômica, política e cultural. Assim, para compreendermos o atual contexto de circulação da literatura brasileira nos Estados Unidos, torna-se necessário levar em conta a sua inserção periférica nesse sistema internacional, profundamente hierarquizado e assimétrico – conforme amplamente demonstrado, entre outros, por Casanova (2002), e Heilbron e Sapiro (2009). Essa condição periférica responde, em parte, pelo fato de a literatura brasileira assim como a língua portuguesa serem pouco traduzidas. Existem fatores políticos (ideológicos), econômicos e culturais em jogo, sobretudo no polissistema de língua inglesa dos Estados Unidos, caracterizado por um índice extremamente baixo (3%) de traduções, e cuja política externa é marcada por uma posição imperialista. No âmbito deste estudo, partimos especialmente de três questões: qual o espaço de circulação da literatura brasileira nos Estados Unidos? Quem são os autores mais traduzidos? Quais editoras mais traduzem? Tais questões constituíram o objetivo 538 Série Iniciados v. 23 principal da pesquisa, e, para desenvolvê- las, partimos de um levantamento das obras traduzidas para o inglês e publicadas nos Estados Unidos dentro de um período de 15 anos (2000-2015), a fim de analisar o perfil do que está sendo traduzido. Esse levantamento serviu de base para um exame das forças, em diferentes níveis, que determinam a seleção, a tradução e a circulação de obras brasileiras no polissistema de chegada. Buscamos, assim, uma primeira aproximação sobre os fatores que influenciam a formação de um sistema de literatura brasileira em língua inglesa e que acabam por contribuir para a construção de identidades brasileiras no exterior. Os objetivos aqui delimitados remetem, inicialmente, a uma discussão sobre a posição do português no mapa mundial das línguas, assim como à história da literatura brasileira: literatura situada na periferia da cartografia literária mundial, sendo, portanto, pouco reconhecida internacionalmente – por exemplo, o Brasil nunca teve um autor agraciado com um prêmio Nobel de literatura. Aliás, essa situação desfavorável às letras brasileiras no exterior contrasta com uma produção literária que já deu provas suficientes de autonomia estética. Nesse sentido, Torres (2004) afirma, referindo-se à reflexão de Pascale Casanova, que a literatura brasileira traduzida ocupa um lugar paradoxal na República Mundial das Letras, sendo considerada ao mesmo tempo uma literatura “independente e autônoma” e uma literatura “menor” ou “pequena” (TORRES, 2004, p. 12). Fundamentação teórica Do ponto de vista teórico, partimos do conceito dinâmico de polissistema formulado por Itamar Even-Zohar (1990), em oposição à ideia estática de sistema, presente no funcionalismo moderno. Com isso, não pensamos exclusivamente em termos de “centro” e “periferia”, mas em uma superposição desses polos. Para Even-Zohar, “a ideia de que os fenômenos semióticos, ou