Tradução, história e desigualdades literárias:a literatura brasileira traduzida em Inglês
financiamento de projetos tradutórios no
longo prazo (até 2020), podendo participar
editoras estrangeiras interessadas em
“difundir a cultura e a literatura brasileiras
no exterior”, a partir de bolsas de tradução
nas áreas de literatura e de humanidades
(FBN, 2011). Ainda segundo Dantas (2018), o
que muda com os editais a partir de 2011 é a
perenidade dessas iniciativas, sua amplitude,
bem como a maior agilidade na concessão do
apoio e o volume dos recursos destinados à
totalidade dos programas. Cabe destacar,
ainda, uma série de eventos literários
internacionais, que conferiram ao Brasil um
lugar de destaque como país homenageado:
Feira do Livro de Bogotá (2012), de Frankfurt
(2013), de Caracas (2014), Feira do Livro
Infantil de Bolonha (2014), Salão do Livro de
Paris (2014).
Em que pesem tais iniciativas, seus
efeitos passam pelo prisma do espaço
internacional de circulação das obras
traduzidas, marcado por assimetrias,
desde que s ujeito a refrações de ordem
econômica, política e cultural. Assim,
para compreendermos o atual contexto
de circulação da literatura brasileira nos
Estados Unidos, torna-se necessário levar
em conta a sua inserção periférica nesse
sistema
internacional,
profundamente
hierarquizado e assimétrico – conforme
amplamente demonstrado, entre outros,
por Casanova (2002), e Heilbron e Sapiro
(2009). Essa condição periférica responde,
em parte, pelo fato de a literatura brasileira
assim como a língua portuguesa serem
pouco traduzidas. Existem fatores políticos
(ideológicos), econômicos e culturais em
jogo, sobretudo no polissistema de língua
inglesa dos Estados Unidos, caracterizado
por um índice extremamente baixo (3%) de
traduções, e cuja política externa é marcada
por uma posição imperialista.
No âmbito deste estudo, partimos
especialmente de três questões: qual o espaço
de circulação da literatura brasileira nos
Estados Unidos? Quem são os autores mais
traduzidos? Quais editoras mais traduzem?
Tais questões constituíram o objetivo
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Série Iniciados v. 23
principal da pesquisa, e, para desenvolvê-
las, partimos de um levantamento das obras
traduzidas para o inglês e publicadas nos
Estados Unidos dentro de um período de 15
anos (2000-2015), a fim de analisar o perfil do
que está sendo traduzido. Esse levantamento
serviu de base para um exame das forças, em
diferentes níveis, que determinam a seleção,
a tradução e a circulação de obras brasileiras
no polissistema de chegada. Buscamos,
assim, uma primeira aproximação sobre os
fatores que influenciam a formação de um
sistema de literatura brasileira em língua
inglesa e que acabam por contribuir para
a construção de identidades brasileiras no
exterior.
Os
objetivos
aqui
delimitados
remetem, inicialmente, a uma discussão
sobre a posição do português no mapa
mundial das línguas, assim como à história
da literatura brasileira: literatura situada na
periferia da cartografia literária mundial,
sendo,
portanto,
pouco
reconhecida
internacionalmente – por exemplo, o
Brasil nunca teve um autor agraciado com
um prêmio Nobel de literatura. Aliás, essa
situação desfavorável às letras brasileiras
no exterior contrasta com uma produção
literária que já deu provas suficientes de
autonomia estética. Nesse sentido, Torres
(2004) afirma, referindo-se à reflexão de
Pascale Casanova, que a literatura brasileira
traduzida ocupa um lugar paradoxal na
República Mundial das Letras, sendo
considerada ao mesmo tempo uma literatura
“independente e autônoma” e uma literatura
“menor” ou “pequena” (TORRES, 2004, p.
12).
Fundamentação teórica
Do ponto de vista teórico, partimos do
conceito dinâmico de polissistema formulado
por Itamar Even-Zohar (1990), em oposição
à ideia estática de sistema, presente no
funcionalismo moderno. Com isso, não
pensamos exclusivamente em termos
de “centro” e “periferia”, mas em uma
superposição desses polos. Para Even-Zohar,
“a ideia de que os fenômenos semióticos, ou