O modelo conventual franciscano nordestino: aproximações com arranjos físicos de outras ordens religiosas
Os dois primeiros mosteiros que se tem notícia remetem ao Egito de princípio do século V – o Mosteiro Vermelho e o Mosteiro Branco. A partir de então foi criada a primeira ordem monástica, na ilha de Lérins, ponto de partida para atingir a Irlanda, cujos mosteiros vieram a florescer nos séculos VI e VII. Estudos realizados na costa ocidental desse país, especificamente na cidade de Skellig Michael, mostraram que ainda existem vestígios e fragmentos que ilustram a organização espacial dos primeiros mosteiros, com destaque para as celas individuais de pedra e as salas comunais( PEVSNER, 1943, p. 48-9).
Paralelamente, no século VII estava ativo outro apostolado em Roma, o qual difundia o cristianismo e a vida monacal tal como é conhecida hoje, diferentemente do Egito e da Irlanda( PEVSNER, 1943, p. 49). A Ordem de São Bento, por seu turno, teria seus princípios propostos por Bento de Núrcia, nascido em 480. Quarenta e nove anos depois o santo católico fundaria a Abadia de Monte Cassino, e iniciaria a redação da Regra Beneditina. Sobre o assunto, Mendes et al( 2011, p. 175), afirma que, dentre seus ensinamentos, estavam a representação do Abade como presença de Cristo na comunidade, a oração coletiva, o silêncio, o trabalho, a humildade, e principalmente, o recolhimento nos claustros monásticos.
Em relação à configuração espacial dos mosteiros de então, Lins( 2002, p. 103), destaca a existência de um traçado tradicional, constituído de um retângulo com três alas de habitação, fechado por uma quarta ala, correspondente a nave lateral da igreja. Segundo o autor, a gênese desse traçado teria acontecido na Síria, local onde a instituição monástica era mais próspera. O claustro, por vezes ornado com pórticos, era formado por quatro alas – onde o quatro correspondia ao número de letras do nome Adão, fazendo uma alusão ao paraíso, considerado no cristianismo com o lugar perfeito. A quadra claustral era, na verdade, um pátio central aberto que representava para os beneditinos a Jerusalém celeste, o núcleo da vida monacal, ao redor do qual habitavam os monges no interior das celas( DE LA TORRE apud LINS, 2002, p. 102).
A igreja era geralmente construida em um dos lados desse quadrilátero e odedecia ao plano da antiga basílica romana – um retângulo provido de abside numa das extremidades, onde a partir do século IX, seria introduzido o nártex ou pórtico na extremidade oposta na maioria dos exemplares. O mosteiro de Saint Gall, na Suiça, foi por muito tempo considerado um dos principais exemplares beneditinos na Europa, onde, segundo Lins( 2002, p. 105), seu traçado constituiria o arquetipo para as construções monásticas a partir do século IX, sofrendo ao longo do tempo pequenas alterações, adições e subtrações do seu modelo espacial. No plano teórico de Saint-Gall, com efeito, por sua vontade de correspondência estreita com as harmonias universais, concebida sobre os eixos do mundo, em equilíbrio aritmético, a épura repousa sobre um módulo de 40 pés, formando a nave da igreja, o núcleo de toda a composição.(...) Ao sul do espaço litúrgico está estabelecida a residência dos monges. Suas disposições se distribuem em torno do pátio interno, o“ claustro”: o celeiro, a cozinha, o refeitório e o dormitório( SCHMITZ; ARIÉS, DUBY apud LINS, 2002, p. 105). De acordo com Pevsner( 1943, p. 57), em 820, uma planta para a reconstrução do Mosteiro de S. Gall foi enviada por algum clérigo categorizado, como sendo um esquema ideal de cenóbio, onde era possivel ver a presença de uma nave única com capelamor aos fundos e o claustro se desenvolvendo em uma das laterais da igreja( Figura 01). Nesse modelo, as divisões monásticas são agrupadas à volta da igreja, levando-se em consideração os princípios beneditinos, sendo esta talvez a característica que mais os diferenciavam dos arranjos físicos do Egito e da Irlanda.
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