Série Iniciados Vol. 23 | Page 395

O modelo conventual franciscano nordestino: aproximações com arranjos físicos de outras ordens religiosas também pelas demais ordens religiosas, cujas casas apresentavam espaços similares, principalmente em decorrência da sua comprovada funcionalidade. A partir do século XVI o modelo foi amplamente reproduzido no Novo Mundo funcionando como habitação e trabalho das comunidades eclesiásticas encarregadas da difusão da fé católica e do Império Ibérico. No Brasil, as ordens religios as tiveram um papel preponderante na expansão do Catolicismo, fortemente abalado na Europa pela Reforma Protestante. No âmbito do Nordeste, franciscanos, jesuítas, carmelitas e beneditinos tiveram destaque, sobretudo no processo de catequização, requisito fundamental para a pacificação com os nativos, e consequentemente para o sucesso do projeto colonizador português. A antiga cidade de Filipéia, foco principal desta pesquisa, contou com a contribuição das quatro ordens supracitadas, cujos conjuntos arquitetônicos foram basilares para a formação de um modelo de arquitetura religiosa. Os referidos edifícios igualmente contribuíram para a expansão da cidade que, a exemplo de outras vilas e povoações coloniais, definiam ruas e praças para o acesso e contemplação dos mesmos. Considerando a hipótese da adoção desse modelo básico, primitivo, de edificação religiosa pelas diferentes ordens católicas, este trabalho revisita o arranjo físico de antigos mosteiros no mundo ocidental, destacando seus ambientes e suas respectivas localizações na planta cenobítica, e sugerindo sua universalidade no contexto do clero regular, como resultado do pronto atendimento dos espaços às demandas gerais das respectivas comunidades religiosas. Nesses termos, a pesquisa intenta identificar as principais semelhanças existentes entre conventos edificados pelos franciscanos, e aqueles das outras ordens em pauta, evidenciando exemplos que atestem bem as aproximações detectadas. O trabalho também procura verificar até que ponto o modelo conventual vigente na Metrópole portuguesa foi reproduzido nos conjuntos arquitetônicos franciscanos edificados no nordeste colonial, com destaque para o convento de Santo Antônio da Paraíba, principalmente no tocante à sua riqueza morfológica, registrada também nas casas das outras ordens estabelecidas na antiga Filipéia. Não obstante, a importância da pesquisa não reside apenas no estudo de um modelo conventual recorrente ao longo do tempo, mas principalmente no processo evolutivo por que passou até chegar à sua morfologia atual. Para tanto, o trabalho aborda o contexto primeiro onde as comunidades religiosas teriam se formado ao nível da Europa, e traz, como forma de melhor ilustrar suas semelhanças, evidências dos conjuntos arquitetônicos produzidos pelas quatro ordens religiosas atuantes na antiga Filipéia, com ênfase para aquele fabricado pelos franciscanos. Fundamentação Teórica Para um melhor entendimento sobre essa arquitetura manifesta pelo clero regular no Brasil colonial, notadamente na cidade paraibana, objeto do presente estudo, é importante que, inicialmente se recorra aos modelos físicos que, num passado longínquo, abrigaram os primeiros grupos de religiosos obstinados por uma vida de oração, trabalho e contemplação. Naquele contexto, a organização dos espaços era resultado das atribuições religiosas, litúrgicas e de trabalho coletivo relativas às diferentes comunidades, sempre calcadas nos ensinamentos cristãos. Segundo Pevsner (1943, p.47), já no século IV, eremitas viviam isolados em cabanas e cavernas nos desertos do Egito, trazendo consigo a ideia de refúgios individuais, por motivos de penitência e busca de tranqüilidade. Com o passar do tempo, esses monges chamados cenobitas, começaram a se deslocar em grupos, antes mesmo de abandonarem seus refúgios individuais, assumindo caráter comunal a igreja, as capelas ou outros espaços adicionais necessários para o desenvolvimento de suas atribuições religiosas. Série Iniciados v. 23 395