O edifício institucional neoclássico e sua configuração espacial na cidade da Parahyba
Apesar de sua expressiva atuação, o
modelo de ensino ministrado por Montigny
reproduzia as lacunas de sua formação
profissional na Academia parisiense, que
já vinha sendo criticada na própria França
por seu conservadorismo estético e,
principalmente, por preparar profissionais
sem conhecimentos suficientes para resolver
bem os aspectos funcionais e tecnológicos
dos edifícios. Segundo depoimentos da época,
os projetos de Montigny apresentavam
sérios problemas de estabilidade, iluminação
e organização espacial, antes favorecendo o
largo uso de adornos caros e desnecessários,
inspirados nas grandes obras clássicas do
passado. Sob essa ótica, o arquiteto tornava-
se um ótimo desenhista e projetista de
fachadas, mas não um profissional completo
(SOUSA, 2001, p. 53-54). Em crítica publicada
no Jornal O Chronista, Montigny é censurado
por aumentar os custos e retardar as obras do
Collegio de Pedro II:
[...] pois longe de querer accomodar
seus planos à vontade do ministro,
longe de procurar conciliar a beleza
e segurança do edifício com o fim
a que se destinava, e sobre tudo
com a necessária economia, queria
multiplicar enfeites, e ornamentos
proprios, quando muito para um
palácio do riquíssimo príncipe, mas
não para um collegio [...]. (Jornal O
Chronista, 10 de maio de 1838 apud
SOUSA, 2001, p. 56)
Segundo Sousa (2001, p. 76), os
projetistas egressos da Academia tendiam a
ficar no Rio de Janeiro e sua área de influência
direta. Com o gradual descrédito, o modelo de
ensino acadêmico foi superado pela eficiência
técnica da engenharia militar, cujas raízes
remetiam à École Polytechnique. A Academia
Militar foi fundada por D. João VI em 1810,
porém a instituição não representava uma
criação absolutamente nova, considerando
que os cursos de engenharia militar foram
estabelecidos ainda no período colonial, mais
precisamente a partir de 1696, nas cidades de
Salvador, Recife, Rio de Janeiro e em São Luís
do Maranhão (SOUSA, 2001, p. 39).
A metodologia impregnada de
racionalismo, economia e austeridade
estética, preconizada pela engenharia
militar, demonstrava a aplicação dos
ensinamentos do já mencionado teórico
francês Jean-Nicolas-Louis Durand, autor de
uma referência básica no curso da Academia
Militar, o consagrado livro Précis des leçons
d’architecture (SOUSA, 2001, p. 71). O projeto
para a sede da Academia, desenvolvido por
Pierre Joseph Pézerat, arquiteto oriundo
da Politécnica parisiense, constituiu um
dos primeiros exemplares baseados na
modulação e nos parâmetros compositivos
de Durand (Figura 03). O local destinado ao
edifício encontrava-se sobre as fundações,
ruínas e paredes da futura catedral do Rio
de Janeiro, obra que fora abandonada ainda
no século XVIII. Segundo Mendes et al (2011,
p. 80), Pézerat aproveitou os alicerces e
algumas paredes de pedra da obra inacabada
e desenvolveu o novo edifício em torno de um
grande pátio, onde, provavelmente, a nave
principal seria construída.
Figura 3. Esquema ilustrando a proximidade entre a solução adotada por Pézerat na Academia
Militar e a metodologia de Durand
Fonte: MENDES et al., 2011: p. 80
Série Iniciados v. 23
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