Série Iniciados Vol. 23 | Page 353

O edifício institucional neoclássico e sua configuração espacial na cidade da Parahyba Apesar de sua expressiva atuação, o modelo de ensino ministrado por Montigny reproduzia as lacunas de sua formação profissional na Academia parisiense, que já vinha sendo criticada na própria França por seu conservadorismo estético e, principalmente, por preparar profissionais sem conhecimentos suficientes para resolver bem os aspectos funcionais e tecnológicos dos edifícios. Segundo depoimentos da época, os projetos de Montigny apresentavam sérios problemas de estabilidade, iluminação e organização espacial, antes favorecendo o largo uso de adornos caros e desnecessários, inspirados nas grandes obras clássicas do passado. Sob essa ótica, o arquiteto tornava- se um ótimo desenhista e projetista de fachadas, mas não um profissional completo (SOUSA, 2001, p. 53-54). Em crítica publicada no Jornal O Chronista, Montigny é censurado por aumentar os custos e retardar as obras do Collegio de Pedro II: [...] pois longe de querer accomodar seus planos à vontade do ministro, longe de procurar conciliar a beleza e segurança do edifício com o fim a que se destinava, e sobre tudo com a necessária economia, queria multiplicar enfeites, e ornamentos proprios, quando muito para um palácio do riquíssimo príncipe, mas não para um collegio [...]. (Jornal O Chronista, 10 de maio de 1838 apud SOUSA, 2001, p. 56) Segundo Sousa (2001, p. 76), os projetistas egressos da Academia tendiam a ficar no Rio de Janeiro e sua área de influência direta. Com o gradual descrédito, o modelo de ensino acadêmico foi superado pela eficiência técnica da engenharia militar, cujas raízes remetiam à École Polytechnique. A Academia Militar foi fundada por D. João VI em 1810, porém a instituição não representava uma criação absolutamente nova, considerando que os cursos de engenharia militar foram estabelecidos ainda no período colonial, mais precisamente a partir de 1696, nas cidades de Salvador, Recife, Rio de Janeiro e em São Luís do Maranhão (SOUSA, 2001, p. 39). A metodologia impregnada de racionalismo, economia e austeridade estética, preconizada pela engenharia militar, demonstrava a aplicação dos ensinamentos do já mencionado teórico francês Jean-Nicolas-Louis Durand, autor de uma referência básica no curso da Academia Militar, o consagrado livro Précis des leçons d’architecture (SOUSA, 2001, p. 71). O projeto para a sede da Academia, desenvolvido por Pierre Joseph Pézerat, arquiteto oriundo da Politécnica parisiense, constituiu um dos primeiros exemplares baseados na modulação e nos parâmetros compositivos de Durand (Figura 03). O local destinado ao edifício encontrava-se sobre as fundações, ruínas e paredes da futura catedral do Rio de Janeiro, obra que fora abandonada ainda no século XVIII. Segundo Mendes et al (2011, p. 80), Pézerat aproveitou os alicerces e algumas paredes de pedra da obra inacabada e desenvolveu o novo edifício em torno de um grande pátio, onde, provavelmente, a nave principal seria construída. Figura 3. Esquema ilustrando a proximidade entre a solução adotada por Pézerat na Academia Militar e a metodologia de Durand Fonte: MENDES et al., 2011: p. 80 Série Iniciados v. 23 353