Série Iniciados Vol. 23 | Page 288

Análise das concepções em saúde do trabalhador para gestores de empresas privadas forte, tanto que na empresa a área que cuida mais da questão doença e saúde não é o RH, ela não... não é o RH” (P2) ; “A empresa não se posiciona, na verdade” (P1). Ou seja, embora a relação trabalho-saúde-doença seja percebida pelos entrevistados, é notável que dentro do espaço da maior parte das empresas citadas, não existe um posicionamento acerca do assunto. Jacques (2007, p. 112) traz que “os vínculos entre o trabalho e o adoecimento psíquico vêm ganhando visibilidade crescente”. Esse reconhecimento acerca da relação entre o trabalho e a saúde mental, também pôde ser notado através das falas de alguns dos sujeitos entrevistados, como por exemplo: “Eu entendo assim que tem uma relação muito forte, né! Tanto em questões físicas mesmo, doenças físicas, como psíquicas, mas que não é dada a devida importância” (P2); “Para doença, eu acredito que tá mais ligado à questão do trabalho fazer pressão, cobrança, relacionamento dentro do ambiente de trabalho...” (P5). É importante ressaltar que apesar da presença real do adoecimento mental na população trabalhadora, esses distúrbios psíquicos que possuem relação com o trabalho constantemente não são reconhecidos como tais no momento da avaliação clínica, e isso se dá, muitas vezes, pela complexidade pertinente à atividade de definir de forma clara a relação entre tais distúrbios e o trabalho desenvolvido pelo paciente (GLINA et al., 2001). Sendo assim, é evidente que mesmo que já exista um conhecimento da parte dos gestores acerca dessa relação, esse conhecimento não é suficiente para trazer grandes mudanças na prática desses profissionais. Isso se dá devido a limitação que lhes é imposta pelas empresas em que atuam, as quais não conseguem identificar essa conexão entre trabalho-saúde-doença e também não dão abertura para que seja realizado um trabalho de conscientização e intervenção. Adoecimento e acidentes de trabalho No que diz respeito ao índice de adoecimento e acidentes de trabalho, a 288 Série Iniciados v. 23 maioria dos sujeitos entrevistados informam que é muito baixo, como podemos ver nas falas a seguir: “Quase zero, é bem pouco mesmo” (P4); “Hoje o nosso índice é muito baixo, quase zero” P5; “Menos de 1%” P6. Já outros, trazem que não possuem conhecimento acerca desse índice: “Eu não sei te dizer” (P1). É relevante destacar que, muitas vezes, o reconhecimento destes índices como sendo baixo se dão devido ao problema de subnotificação, que segundo Aquino (1996), é muito alto aqui no Brasil. Fora isso, existe a questão da culpabilização do trabalhador, que dá lugar a manutenção do mecanismo de atribuição da responsabilidade que tem base na “culpabilização das vítimas”, e que de acordo com Jackson Filho, Garcia e Almeida (2007), contribui de forma significativa para o problema da prevalência de acidentes e doenças do trabalho como mais um indicador de desigualdade cultural e social, tendo em vista que as causas de mortes mais associadas ao trabalho estão na classe de trabalhadores assalariados e não na classe dos profissionais liberais (WOONDING; LEVESNTEIN, 1999 como citado em JACKSON FILHO; GARCIA; ALMEIDA, 2007). “É muito baixo, as doenças que chegam é.…a maioria são doenças que não foram desencadeadas por causa do trabalho. São mais pessoas que já tem alguma coluna, algum problema de coluna, algum problema de pele, algum transtorno depressivo, antes de entrar na empresa, aí que normalmente não é desencadeado por ela