Série Iniciados Vol. 23 | Página 263

Estudo dos efeitos da reserva cognitiva sobre as queixas subjetivas de memória retrospectiva em uma amostra de idosos sem demência Enquanto alguns encontraram a relação entre queixa subjetiva e declínio real da memória (GENZIANI et al., 2013), outros não identificaram as queixas de memória como preditores do prejuízo cognitivo (WOLF et. al., 2005). Existem diferentes tipos de QSM, incluindo a QSM prospectiva – dificuldade na evocação das intenções que devem ser realizadas no futuro – e QSM retrospectiva – dificuldades na evocação de eventos e situações prévias. Analisar estes tipos de QSM separadamente é importante, uma vez que, cada um deste tipo de queixas parece predizer o desempenho de memórias diferentes. As QSM prospectiva predizem o desempenho dos participantes em testes de avaliação da memória prospectiva e não da memória episódica (ZEINTL et al., 2006; KLIEGEL; JAGER, 2006). Por sua vez, dificuldades na evocação de eventos e situações prévias são denominadas de falhas de memória retrospectiva (BENITES; GOMES, 2007). Especial atenção deve ser dada ao nível de escolaridade e às atividades ocupacionais da pessoa idosa. Estudos sobre idosos brasileiros mostram que eles dispõem de menor educação formal (CARTHERY- GOULART et al., 2009), o que os torna mais vulneráveis a apresentar alterações cognitivas. A qualificação escolar, as habilidades intelectuais treinadas, as atividades de maior exigência cognitiva realizadas ao longo da vida e o ambiente cognitivamente estimulante podem ocasionar a chamada Reserva Cognitiva (RC), que, segundo Stern (2003), poderia dificultar a evolução de um processo neurodegenerativo na fase do envelhecimento. Deve-se, ainda, supor que, em indivíduos com escolaridade alta, falsos negativos podem ser obtidos, e indivíduos com baixa escolaridade podem insinuar falsos positivos em testes padronizados. Fatores relacionados à frequência a escolas, acesso à informação, familiaridade no uso de lápis e, em alguns casos, com equipamentos eletrônicos, não devem ser desprezados. A relação entre QSM e a RC tem sido escassamente estudada na literatura (JOÃO et al., 2016), entretanto, nem todos os tipos de QSM foram avaliados em pesquisas, o que levanta a questão de comparar a influência da reserva sobre os diferentes tipos de QSM, incluindo a QSM prospectiva e QSM retrospectiva. Em outro sentido, investigações transversais sugerem que a associação entre o QSM e o risco de demência varia em função do nível de escolaridade, sendo mais significativo em indivíduos mais velhos altamente escolarizados, que ainda têm um bom desempenho em testes cognitivos formais (VAN OIJEN et al., 2007; CHARY et al., 2013). Portanto, é concebível que o nível de escolaridade ou de reserva cognitiva pode explicar, em certa medida, os resultados inconsistentes de estudos anteriores relacionando o declínio objetivo e subjetivo. Metodologia e análise A presente pesquisa foi desenvolvida pelo Serviço de Neuropsicologia do Envelhecimento (SENE), localizado na Clínica Escola de Psicologia da UFPB (Departamento de Psicologia do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba – Campus I). Este serviço oferece avaliação neuropsicológica à população adulta e idosa, de forma gratuita. A partir desse processo avaliativo, é possível identificar a existência de algum comprometimento das funções cognitivas (atenção, memória, funções executivas, linguagem), bem como, as funções que se mantém estáveis. Para compor a amostra do estudo, alguns critérios de elegibilidade foram elaborados, entre eles: (1) possuir idade maior ou igual a 60 anos; (2) não possuir diagnóstico de transtorno neurocognitivo maior, de acordo aos critérios DSM-V, ou enfermidades psiquiátricas graves (esquizofrenia, por exemplo); (3) não possuir comprometimento cognitivo moderado ou grave, evidenciado pela pontuação igual ou inferior a 23 no Mini Exame do Estado Mental (MEEM) ou por um escore maior ou igual a 4 na escala FAQ (Atividades da Vida Diária de Pfeffer); Série Iniciados v. 23 263