Estudo dos efeitos da reserva cognitiva sobre as queixas subjetivas
de memória retrospectiva em uma amostra de idosos sem demência
Enquanto alguns encontraram a relação
entre queixa subjetiva e declínio real da
memória (GENZIANI et al., 2013), outros não
identificaram as queixas de memória como
preditores do prejuízo cognitivo (WOLF et.
al., 2005).
Existem diferentes tipos de QSM,
incluindo a QSM prospectiva – dificuldade
na evocação das intenções que devem ser
realizadas no futuro – e QSM retrospectiva
– dificuldades na evocação de eventos e
situações prévias. Analisar estes tipos de QSM
separadamente é importante, uma vez que,
cada um deste tipo de queixas parece predizer
o desempenho de memórias diferentes. As
QSM prospectiva predizem o desempenho
dos participantes em testes de avaliação
da memória prospectiva e não da memória
episódica (ZEINTL et al., 2006; KLIEGEL;
JAGER, 2006). Por sua vez, dificuldades na
evocação de eventos e situações prévias
são denominadas de falhas de memória
retrospectiva (BENITES; GOMES, 2007).
Especial atenção deve ser dada
ao nível de escolaridade e às atividades
ocupacionais da pessoa idosa. Estudos sobre
idosos brasileiros mostram que eles dispõem
de menor educação formal (CARTHERY-
GOULART et al., 2009), o que os torna
mais vulneráveis a apresentar alterações
cognitivas.
A qualificação escolar, as habilidades
intelectuais treinadas, as atividades de
maior exigência cognitiva realizadas ao
longo da vida e o ambiente cognitivamente
estimulante podem ocasionar a chamada
Reserva Cognitiva (RC), que, segundo Stern
(2003), poderia dificultar a evolução de
um processo neurodegenerativo na fase do
envelhecimento. Deve-se, ainda, supor que,
em indivíduos com escolaridade alta, falsos
negativos podem ser obtidos, e indivíduos
com baixa escolaridade podem insinuar
falsos positivos em testes padronizados.
Fatores relacionados à frequência a escolas,
acesso à informação, familiaridade no uso de
lápis e, em alguns casos, com equipamentos
eletrônicos, não devem ser desprezados.
A relação entre QSM e a RC tem sido
escassamente estudada na literatura (JOÃO
et al., 2016), entretanto, nem todos os tipos
de QSM foram avaliados em pesquisas, o que
levanta a questão de comparar a influência
da reserva sobre os diferentes tipos de
QSM, incluindo a QSM prospectiva e QSM
retrospectiva.
Em outro sentido, investigações
transversais sugerem que a associação
entre o QSM e o risco de demência varia em
função do nível de escolaridade, sendo mais
significativo em indivíduos mais velhos
altamente escolarizados, que ainda têm
um bom desempenho em testes cognitivos
formais (VAN OIJEN et al., 2007; CHARY et
al., 2013). Portanto, é concebível que o nível
de escolaridade ou de reserva cognitiva pode
explicar, em certa medida, os resultados
inconsistentes
de
estudos
anteriores
relacionando o declínio objetivo e subjetivo.
Metodologia e análise
A presente pesquisa foi desenvolvida
pelo Serviço de Neuropsicologia do
Envelhecimento (SENE), localizado na Clínica
Escola de Psicologia da UFPB (Departamento
de Psicologia do Centro de Ciências Humanas,
Letras e Artes da Universidade Federal da
Paraíba – Campus I). Este serviço oferece
avaliação neuropsicológica à população
adulta e idosa, de forma gratuita. A partir desse
processo avaliativo, é possível identificar
a existência de algum comprometimento
das funções cognitivas (atenção, memória,
funções executivas, linguagem), bem como,
as funções que se mantém estáveis.
Para compor a amostra do estudo,
alguns critérios de elegibilidade foram
elaborados, entre eles: (1) possuir idade maior
ou igual a 60 anos; (2) não possuir diagnóstico
de transtorno neurocognitivo maior, de
acordo aos critérios DSM-V, ou enfermidades
psiquiátricas graves (esquizofrenia, por
exemplo); (3) não possuir comprometimento
cognitivo moderado ou grave, evidenciado
pela pontuação igual ou inferior a 23 no
Mini Exame do Estado Mental (MEEM) ou
por um escore maior ou igual a 4 na escala
FAQ (Atividades da Vida Diária de Pfeffer);
Série Iniciados v. 23
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