Samba Acadêmico Setembro 2016 | Page 11

O momento era crítico. Se exigia respostas, se exigia liberdade, democracia. O grande estopim teria sido a morte do jornalista Wladimir Herzog, assassinado nos porões do DOI-CODI, braço de tortura da Ditadura. O governo insistia em obras grandiosas para mostrar sua capacidade e esconder as mortes por tortura. O enredo do samba “O Bêbado e a Equilibrista” fala deste contexto. “Caia a tarde feito um viaduto...” referência a queda do elevado Paulo de Frontin no Rio de Janeiro, ou o Pavilhão projetado por Niemayer e que desabou na cidade de Belo Horizonte em 1971.A volta do irmão do Henfil, Herbert de Souza, o Betinho. Betinho deixou o a país exilado. Primeiro Chile, Panamá, Canadá e México. Voltou ao Brasil em 1979 ainda sob a suspeita que poderia ser preso ao desembarcar. Segundo seu irmão Henfil “Todas as pessoas levaram um gravador com a fita da música. Era uma ”tocação” de “O bêbado e a equilibrista.” Até os policiais ficaram tocados. No mesmo dia levei meu irmão ao Anhembi para o show da Elis.”

DOI-CODI

Surgiu a partir da OBAN – Operação Bandeirante em julho de 1969. Em São Paulo era localizado na Rua Tutoia no bairro do Paraíso. Foi neste local que o jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog foi torturado e assassinado em 1975. Menos de um ano depois, em circunstâncias semelhantes, morre também por "suicídio" atestado pelo mesmo Harry Shibata, nas dependências do DOI-CODI paulista, o operário metalúrgico Manoel Fiel Filho. DOI-CODI, sigla de Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna, foi um órgão repressor criado pelo Regime Militar brasileiro (1964-1985) para prender e torturar aqueles que fossem contrários ao regime.

Os agentes do DOI-CODI eram treinados nos moldes da instituição norte americana National War College, que aprisionava combatentes que se opunham à hegemonia norte americana na Guerra Fria. No Brasil, os militares desse órgão eram treinados na Escola Superior de Guerra (ESG) e defendiam os ideais de direita disseminados pelos ditadores.

Com o fim da Ditadura Militar, em 1985, automaticamente o centro de inteligência do DOI-CODI foi extinto. Porém, ainda hoje não se sabe o destino de muitos presos políticos capturados por esses agentes.

O que se dizer então de “Caia a tarde...”, uma referência ao horário do dia em que começavam as torturas do DOI-CODI. Quem são estas Marias e Clarisses que choram? Viúvas de presos levados a interrogatório e que nunca saíram vivos, esposas de Vladimir Herzog e do metalúrgico Manuel Fiel Filho assassinados nos porões da Polícia da Ditadura em São Paulo.

Que Lua é esta que brilha como a Dona do Bordel. A Dona do Bordel não brilha, vive do brilho de suas meninas, como a Lua que não tem luz própria. As metáforas “estrelas” seriam os generais e o “céu” a prisão.

Quem está sonhando e com o que está sonhando? O Brasil sonha, o povo brasileiro sonha com a volta dos exilados, de nossos pensadores, de nossos professores, de nossos músicos, de nossos artistas

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