eu este sentimento? Era essencialmente o abraço. A falta do abraço. O abraço diferente dos outros. O abraço mesclado com a cumplicidade e a intimidade, que envolvia corpo e alma. Depois, era a presença física e a a voz que dizia: "Não te preocupes. Vai ficar tudo bem." A solidão tornava-se mais intensa nos dias de férias, ou festivos, ou quando observava os casais apaixonados de mão dada, que sempre me avivavam a memória, e me diziam que eu não tinha uma mão para dar.
De facto, essa talvez fosse a parte mais difícil de superar. Foi uma grande luta interna, seguida de um grande trabalho interior...até perceber e tomar consciência que sim... Sim, é possível viver só, sem sofrimento. Percebi que é possível encontrar outro sentido para a vida. Uma nova vida. Uma vida diferente, pois eu não seria mais a mesma. Algo floresceu dentro de mim e ganhei uma força que estava algures no meu ser e que eu desconhecia.
Tinha sempre dois caminhos: ou me revoltava e vivia de mal com a vida e com todos; ou avançava e acreditava que era possível renascer das cinzas e que o caos me podia levar a caminhos maravilhosos que ignorava totalmente. Escolhi renascer.
Clara Costa, 49 anos
Conselheira do Luto
S. João da Madeira (Portugal)
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