RPL - Revista Portuguesa sobre o Luto 2 | Page 30

Solidão no Luto

Após 20 anos de uma vida partilhada, fiquei viúva. Tinha eu 47 anos. Foi uma morte súbita. Sem que houvesse um aviso prévio, um sinal para preparar o meu coração. Não tive escolha. Fiquei só. Tive de enfrentar. Mesmo tendo um filho em comum, à data com 13 anos, não substituía o marido. Da mesma maneira que um marido não substitui um filho, pois são laços diferentes e inigualáveis.

Após a sua partida, andei quase um ano empenhada a resolver inúmeras questões burocráticas, ocupando tanto a minha mente, que talvez de algum modo, não me tenha permitido pensar muito sobre o facto de estar sozinha. Foi um tempo de adaptação a uma nova realidade. Uma dolorosa aprendizagem. Aprender a andar e a resolver tudo sozinha. Estava por minha conta. Coisas simples, como levar o carro ao mecânico, ver a pressão dos pneus, ir às compras, ter que fazer uma viagem mais longa, ir a jantares de amigos em comum, aspectos relacionados com o nosso filho...tudo era um esforço. Tudo era desconfortável e quase penoso. Depois veio a repetição. E o esforço, já não mais era esforço. Então adaptei-me. E noutras situações deixei de ir ou fazer certas coisas.

No entanto, o pior veio depois. O sentimento de solidão atingiu bem lá no fundo do meu ser, quando passou o período das resoluções burocráticas, e as tarefas rotineiras passaram a ser forçosamente integradas na minha vida. A solidão instalou-se em toda a sua plenitude, quando comecei a sentir que já não existia o laço de afecto, porque afinal a pessoa que fazia parte da minha vida já cá não estava e não mais voltaria. E aí sim... Surgiu uma sensação sombria de solidão. Uma tristeza sem fim. Era como se faltasse parte de mim. Tentava perceber o que era. Porque tinha

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