Solidão no Luto
Após 20 anos de uma vida partilhada, fiquei viúva. Tinha eu 47 anos. Foi uma morte súbita. Sem que houvesse um aviso prévio, um sinal para preparar o meu coração. Não tive escolha. Fiquei só. Tive de enfrentar. Mesmo tendo um filho em comum, à data com 13 anos, não substituía o marido. Da mesma maneira que um marido não substitui um filho, pois são laços diferentes e inigualáveis.
Após a sua partida, andei quase um ano empenhada a resolver inúmeras questões burocráticas, ocupando tanto a minha mente, que talvez de algum modo, não me tenha permitido pensar muito sobre o facto de estar sozinha. Foi um tempo de adaptação a uma nova realidade. Uma dolorosa aprendizagem. Aprender a andar e a resolver tudo sozinha. Estava por minha conta. Coisas simples, como levar o carro ao mecânico, ver a pressão dos pneus, ir às compras, ter que fazer uma viagem mais longa, ir a jantares de amigos em comum, aspectos relacionados com o nosso filho...tudo era um esforço. Tudo era desconfortável e quase penoso. Depois veio a repetição. E o esforço, já não mais era esforço. Então adaptei-me. E noutras situações deixei de ir ou fazer certas coisas.
No entanto, o pior veio depois. O sentimento de solidão atingiu bem lá no fundo do meu ser, quando passou o período das resoluções burocráticas, e as tarefas rotineiras passaram a ser forçosamente integradas na minha vida. A solidão instalou-se em toda a sua plenitude, quando comecei a sentir que já não existia o laço de afecto, porque afinal a pessoa que fazia parte da minha vida já cá não estava e não mais voltaria. E aí sim... Surgiu uma sensação sombria de solidão. Uma tristeza sem fim. Era como se faltasse parte de mim. Tentava perceber o que era. Porque tinha
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