RPL - Revista Portuguesa sobre o Luto 2 | страница 26

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tinha que protege-la. Não consigo mais ter alegria. As pessoas se afastaram de mim. Minhas amigas gestantes se afastaram, não falam mais comigo. Como se fosse contagiosa essa minha perda. As pessoas me tratam diferente. Sempre que tento falar sobre minha filha, sou cortada com a famosa frase: “Essa foi a vontade de Deus, conforme-se”. E eu… Simplesmente me calo…

As pessoas dizem entender o que a gente sente. Mas não entendem a não ser que tenham perdido um filho também. Depois de um tempo elas seguem a vida normal. Não querem mais saber do assunto. Como se nunca houvesse existido aquele bebê. E eu me sinto presa em um sentimento. Pois quero falar dela! O quanto ela era linda. O quanto se parecia comigo. Quanta falta ela me faz. E o quando eu me sinto sozinha! Eu estou cansada de ouvir frases clichés. “Foi a vontade de Deus”; “Ela não era pra ser sua”; “Foi melhor antes do que depois mais grandinha quando você tivesse se apegado nela”; “Quem sabe ela teria algum problema e iria sofrer”; “Ela era tão especial que Deus quis ela para Ele”; “Deus levou ela desse mundo para não sofrer. Se alegre ela esta salva”; “Você é nova, logo Deus te dará outro”.

As pessoas não abrem espaço para que possamos falar sobre o que sentimos. Elas apenas saem dando suas opiniões e conselhos. Sem ninguém pedir. Esquecem de escutar. Então, eu me afastei muito das pessoas. Fico trancada em casa, sofrendo sozinha... Desabafo com as amigas que conheci pós-perda, elas me entendem pois passaram pelo mesmo que eu. Elas pensam igual… Sofrem igual… Então ali, eu me sinto acolhida.

O sentimento que tenho é como se eu tivesse numa escuridão. Me sinto completamente sozinha. Vejo as pessoas próximas vivendo suas vidas felizes nem ligam. Ninguém da o apoio que realmente precisamos. Ao invés de apenas te abraçar e falar que não entende sua dor mas que está ali para te ouvir...Não...