REVISTA RABISCOS DE CONTOS Revista Rabiscos de Contos IFBA | Page 27

rabiscos de contos Superar obstáculos Jennifer Menezes Meu nome é Dandara, moro no subúrbio de Salvador, lugar simples, sem boa infraestrutura e saneamento básico. Sou estudante de Ciências Sociais da UFBA, estou no último semestre da graduação. Desde pequena, tenho bom rendimento escolar. Meus pais se esforçavam para dar-me o melhor. Na infância, tive muitos problemas para me enturmar, pois a maioria das crianças tinha pais com boas condições financeiras e era diferente fisicamente a mim: eu tenho cabelos crespos, e as outras tinham cabelos lisos e grandes. Minha vida atualmente é uma confusão: estudo, trabalho, limpo a casa e pago as contas, vivendo em um bairro onde há falta de intervenção governamental. Cuido do meu pai que sofreu um acidente há um ano e está inabilitado para andar. Como cadeirante, encontra muitos problemas de acessibilidade. É um verdadeiro transtorno para sir e voltar para casa, quando vai passear a uma consulta médica. Na infância, tive dificuldades para aceitar meu perfil físico: cor de pele e tipo de cabelo. Foi difícil perceber que não era aceita por parte das outras meninas. Viria a compreender depois que a melhor aceitação é a própria, se amar como é, com suas diferenças. Deixei meu cabelo crescer em um black power lindo. Na adolescência, aprendi sobre lugar de fala com minha professora de português. Ela me apresentou o feminismo negro e me ajudou a reconhecer e lutar pelos meus direitos. A partir dos meus conhecimentos sobre feminismo negro, pela leitura de livros de conhecidas autoras como Angela Davis e Djamila Ribeiro, passei a me interessar por política e a compreender as desigualdades sociais. Por isso, decidi cursar Ciências Sociais. Por muito tempo, procurei estágios em minha área de estudos, mas nunca conseguia. Tive que começar a trabalhar como empregada doméstica. Consegui “bicos” para poder ajudar no sustento da minha família, que passava por dificuldades há tempos. Meu pai discutiu comigo quando descobriu que eu estava trabalhando. Tive que sair do trabalho pra ele não continuar triste e sua saúde piorar. Procurei pelos orientadores e coordenadores do meu curso, para que me indicassem estágios remunerados. Fui para uma entrevista num dos escritórios que indicaram. A conversa com um dos diretores foi ótima. Obtive grande êxito e consegui a tão batalhada vaga do estágio. Fui desafiando e superando as barreiras sociais e culturais que me foram violentamente impostas, por meio da consciência política e da luta. Conquistei meu direito de trabalhar e estar onde eu quiser. 26