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contos
Superar obstáculos
Jennifer Menezes
Meu nome é Dandara, moro no subúrbio de Salvador, lugar simples, sem boa
infraestrutura e saneamento básico. Sou estudante de Ciências Sociais da UFBA, estou
no último semestre da graduação. Desde pequena, tenho bom rendimento escolar. Meus
pais se esforçavam para dar-me o melhor. Na infância, tive muitos problemas para me
enturmar, pois a maioria das crianças tinha pais com boas condições financeiras e era
diferente fisicamente a mim: eu tenho cabelos crespos, e as outras tinham cabelos lisos e
grandes.
Minha vida atualmente é uma confusão: estudo, trabalho, limpo a casa e pago as contas,
vivendo em um bairro onde há falta de intervenção governamental. Cuido do meu pai que
sofreu um acidente há um ano e está inabilitado para andar. Como cadeirante, encontra
muitos problemas de acessibilidade. É um verdadeiro transtorno para sir e voltar para
casa, quando vai passear a uma consulta médica.
Na infância, tive dificuldades para aceitar meu perfil físico: cor de pele e tipo de cabelo.
Foi difícil perceber que não era aceita por parte das outras meninas. Viria a compreender
depois que a melhor aceitação é a própria, se amar como é, com suas diferenças. Deixei
meu cabelo crescer em um black power lindo. Na adolescência, aprendi sobre lugar de
fala com minha professora de português. Ela me apresentou o feminismo negro e me
ajudou a reconhecer e lutar pelos meus direitos.
A partir dos meus conhecimentos sobre feminismo negro, pela leitura de livros de
conhecidas autoras como Angela Davis e Djamila Ribeiro, passei a me interessar por
política e a compreender as desigualdades sociais. Por isso, decidi cursar Ciências
Sociais.
Por muito tempo, procurei estágios em minha área de estudos, mas nunca conseguia. Tive
que começar a trabalhar como empregada doméstica. Consegui “bicos” para poder ajudar
no sustento da minha família, que passava por dificuldades há tempos.
Meu pai discutiu comigo quando descobriu que eu estava trabalhando. Tive que sair do
trabalho pra ele não continuar triste e sua saúde piorar. Procurei pelos orientadores e
coordenadores do meu curso, para que me indicassem estágios remunerados.
Fui para uma entrevista num dos escritórios que indicaram. A conversa com um dos
diretores foi ótima. Obtive grande êxito e consegui a tão batalhada vaga do estágio. Fui
desafiando e superando as barreiras sociais e culturais que me foram violentamente
impostas, por meio da consciência política e da luta. Conquistei meu direito de trabalhar
e estar onde eu quiser.
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