REVISTA RABISCOS DE CONTOS Revista Rabiscos de Contos IFBA | Page 26

rabiscos de contos Tristes olhos preconceituosos Ítalo dos Santos Silva Era uma linda tarde de sábado. O céu estava belo, com poucas nuvens, e o sol estava radiante. Eu me encontrava no condomínio da minha tia, que ficava em um bairro bastante privilegiado, em comparação com a minha violenta comunidade. Estava lá para fazer uma simples visita e me distrair com presença da minha prima, que tinha chegado ao mundo recentemente. Me senti tão bem naquele dia maravilhoso ao lado das pessoas que eu mais amava. Assim que deu 16h30, minha tia me pediu para ir ao mercado que ficava ao lado do condomínio. Queria que eu comprasse os ingredientes para que ela fizesse o seu melhor prato: um incrível bolo de cenoura com calda de chocolate que só ela sabia fazer. Vai por mim, era muito gostoso! Não via a hora de comer aquele bolo. Peguei meu par de chinelos e fui da forma que me encontrava no momento: cabelo bagunçado, roupa e pés sujos de tanta terra, após brincar descalço no parque. Sem dúvida alguma era um dos melhores dias da minha vida, estava tão feliz que fui saltitando para o mercado. Quando coloquei meus pés na entrada daquele lugar, minha felicidade chegou ao fim no mesmo instante. Meu dia ficou triste, cinza. Meu ânimo morreu dentro de mim quando vi uma família de brancos me olhando assustados, colocando as compras bem próximas dos seus corpos. Pensei no que eu tinha feito de errado, mas na minha mente não encontrei justificativa alguma para uma família olhar com tanto desprezo para um garoto de 12 anos. Aquilo era pelo simples fato desse garoto ter um tom de pele escuro, estar sujo, usando uma roupa bem simples e com o cabelo completamente desarrumado. Associaram a minha imagem à de um pivete, um ladrão que vaga pelas ruas em busca de uma carteira para passar as mãos. Naquele momento, se importaram mais com a minha aparência do que com o sorriso que eu carregava no rosto, por conta de um simples pedaço de bolo que fecharia o meu dia com chave de ouro. Ao invés de sentir o doce gosto daquele bolo, pude sentir o amargo sabor do racismo. 25