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contos
Vidas tangentes
Kauan Felipe Marques Nascimento Oliveira
Enzo era um garoto de 13 anos, de classe média baixa. Um dia seu caminho cruzou com
o de João, um garoto com a mesma idade, mas que era pobre e até a comida na mesa era
algo de difícil de conseguir.
Às 6h o despertador toca. Enzo levanta, se arruma, toma café. Sai de casa e vai ao ponto
esperar o ônibus que o levaria à escola pública em que estudava, que ficava a uns 40
minutos da sua casa. Às 5h, João é acordado por sua mãe, que talvez nem tenha dormido,
preocupada em como alimentaria o filho nos dias posteriores. Ele se arruma o mais rápido
que pode, come metade de um pão que tinha sido dividido no dia anterior e sai o mais o
mais cedo possível, pois tem que ir andando até a mesma escola em que o Enzo estuda.
Todos os dias faziam o mesmo percurso, mas aquele dia mudaria a vida dos dois. O ônibus
do Enzo atrasou. Apesar disso, conseguiria chegar no horário. No caminho, viu João, que
era da sua sala, mas não era muito de falar. Enzo chegou no horário. Algum tempo depois
chegou João, exausto. A professora não permite sua entrada. Justifica que a passagem
custa apenas R$ 4,00 e, como estudante, ele ainda pagaria meia. João então faz uma
pergunta com toda sua inocência: “se eu pegar um ônibus, como fica o dinheiro do pão?”.
A turma toda ri e debocha do garoto, como se fosse uma pergunta de outro mundo, menos
Enzo, que realmente pensa na situação do colega.
Após aquele dia, Enzo começou a refletir mais sobre sua própria vida. Viu que tudo de
que reclamava às vezes era justamente o que outra pessoa queria ter. A partir desse
instante, começou a ser grato por tudo. João, por sua vez, entendeu que era inviável
continuar daquela forma, pois a escola não fazia esforços para ensiná-lo. Além disso, a
caminhada até a escola o deixava exausto. Desistiu e parou de frequentar as aulas. Não
achou nenhuma válvula de escape e cada vez mais enxergava o desespero de sua mãe para
pôr comida em casa. Envolveu-se com pessoas e coisas erradas. No fim de sua vida,
acabou sendo só mais um corpo no chão. O Enzo nunca mais cruzaria com ele no
caminho...
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