REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 86

O BORDADO COMO LINGUAGEM DE RESISTÊNCIA NA AMÉRICA LATINA: América Latina é rica em trabalho artesanal oriundo dos povos tradicionais e seus saberes. Em decorrência da colonização e da colonialidade, muitas dessas técnicas sofreram invisibilização e apropriação, em favor dos países colonizadores. Na história do continente podemos reconhecer numerosos povos que produziram — e ainda produzem — diversos tipos de arte têxtil, com uma riqueza inigualável de materiais e técnicas (QUEIROZ, 2011). A 86 A colonização trouxe para o Brasil as práticas artesanais dos países europeus. Segundo Silva (1995), os engenhos de açúcar das áreas rurais foram locais que favoreceram a difusão das artes manuais. As senhoras de engenho, que tinham o bordado enquanto ocupação doméstica, passavam as técnicas europeias para as mucamas que lhes serviam. Assim, essas práticas foram sendo transmitidas de geração em geração e se tornando tradicionais em algumas famílias e regiões. Posteriormente, no decorrer da industrialização, o bordado foi fonte de sustento para mulheres da classe menos abastada, por ser um trabalho manual que gozava de certa demanda e atraia consumidores de maior poder aquisitivo. Na América Latina, o bordado também tem agido como uma expressão de resistência. Nos anos da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), mulheres chilenas produziram as Arpilleras, expressão que surgiu para se referir ao trabalho de um grupo de bordadeiras de Isla Negra, região litorânea do Chile, que utilizava suportes rústicos, como sacos de cânhamo, e costurava à mão, compartilhando nesse espaço de tecido suas histórias e as das suas comunidades. Elas denunciaram abertamente para o mundo injustiças e torturas do período ditatorial. Segundo Roberta Bacic (2012) as Arpilleras se tornaram também uma fonte de renda graças à atividade cooperativa. As Apilleras chilenas tiveram entre seus expoentes a artista Violeta Parra, que fez diversos trabalhos de bordado em formato de grandes telas, com temáticas regionais e de protesto. Em 1964, Parra expôs suas obras no Museu de Artes Decorativas do Louvre (Musée des Arts Décoratifs), se tornando a primeira artista latino-americana a fazê-lo. No Brasil, esse tipo de trabalho de denúncia é realizado por alguns grupos, dentre os quais podemos citar o Movimento Atingidos por Barragens (MAB), uma organização nacional que tem como objetivo defender os