REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 85

A revista Casa e Jardim, em uma matéria de 13 de setembro de 2016, traça um perfil de algumas bordadeiras contemporâneas, que “[...] aprendem e aperfeiçoam-se sozinhas, rascunham seus próprios desenhos e propõem criações livres, sem saber nomes de pontos ou técnicas” (MELLO, 2016). Como observado pela autora, grande parte das pessoas que estão produzindo esse tipo de trabalho são mulheres, e as temáticas abordadas por elas são, muitas vezes, sobre o ser mulher na sociedade. Elas utilizam símbolos e outras formas de expressão que lhes permitem transmitir nos bordados suas próprias narrativas, discutindo questões feministas dentro de uma prática até então tratada como imagem de submissão, por estar ligada ao confinamento domiciliar da mulher e aos estereótipos conservadores de feminilidade (SIMIONI, 2010). Segundo Queiroz, o bordado contemporâneo subverte valores estabelecidos tradicionalmente: O bordado surge já como um espaço libertador, mesmo quando encerrado no espaço privado, e progressivamente foi se convertendo em atividade lucrativa na atualidade, e assim uma dupla libertação pelo acesso ao espaço público. O bordado se converte em espaço enunciativo para o grupo de mulheres artesãs na atualidade, além de ser um campo da formação de renda (monetária) e uma forma de expressão. (2011, p. 16) O Plano Setorial do Artesanato Brasileiro de 2015 cita a produção coletiva do bordado como uma das modalidades do nosso artesanato, não só enquanto produção, mas também em sua comercialização. E não deixa de mencionar o tipo de produção contemporânea “não tradicional”: O Plano Setorial do Artesanato engloba tanto o artesanato tradicional, aquele produzido a partir de uma técnica que um grupo detém e que é passada de geração em geração, como também um tipo de artesanato mais recente, que envolve outros materiais e design mais contemporâneo (MEC, 2015, p. 2). O bordado contemporâneo vai adicionar novos materiais e estilos de design até então não associados ao bordado tradicional. Nesse sentido são representativas as obras da artista sul-africana Danielle Clough, que utiliza raquetes de tênis como suporte; a brasileira Rosana Paulino, que trabalha na série Bastidores (1997) com a técnica de transferência de imagem sobre tecido; e a peruana Juana Gómez que, nos seus estudos de paisagens ultrapassa as margens dos bastidores, brincando com o espaço que transita entre o bi e o tridimensional. Ainda no âmbito das relações entre arte decorativa e bordado, A CASA (Museu do Objeto Brasileiro) — cujo foco está nos objetos de matriz artesanal, semiartesanal e industrial — realizou em maio de 2017 uma mostra, com curadoria do designer têxtil Renato Imbroisi, cuja expografia reproduzia uma casa, com suas portas, janelas e cômodos, formada e preenchida por mais de 200 peças bordadas vindas dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal. Nessa exposição, algumas peças foram expostas em bastidores de variados tamanhos, revelando assim a possibilidade modular do bordado em bastidor, algo muito pertinente na decoração. 85