A revista Casa e Jardim, em uma
matéria de 13 de setembro de
2016, traça um perfil de algumas
bordadeiras contemporâneas, que
“[...] aprendem e aperfeiçoam-se
sozinhas, rascunham seus próprios
desenhos e propõem criações livres,
sem saber nomes de pontos ou
técnicas” (MELLO, 2016). Como
observado pela autora, grande parte
das pessoas que estão produzindo
esse tipo de trabalho são mulheres,
e as temáticas abordadas por elas
são, muitas vezes, sobre o ser mulher
na sociedade. Elas utilizam símbolos
e outras formas de expressão que lhes
permitem transmitir nos bordados
suas próprias narrativas, discutindo
questões feministas dentro de uma
prática até então tratada como
imagem de submissão, por estar ligada
ao confinamento domiciliar da mulher
e aos estereótipos conservadores
de feminilidade (SIMIONI, 2010).
Segundo Queiroz, o bordado
contemporâneo subverte valores
estabelecidos tradicionalmente:
O bordado surge já como um espaço
libertador, mesmo quando encerrado no
espaço privado, e progressivamente foi
se convertendo em atividade lucrativa na
atualidade, e assim uma dupla libertação
pelo acesso ao espaço público. O bordado
se converte em espaço enunciativo para o
grupo de mulheres artesãs na atualidade,
além de ser um campo da formação de renda
(monetária) e uma forma de expressão. (2011,
p. 16)
O Plano Setorial do Artesanato Brasileiro
de 2015 cita a produção coletiva do
bordado como uma das modalidades
do nosso artesanato, não só enquanto
produção, mas também em sua
comercialização.
E não deixa de mencionar o tipo
de produção contemporânea
“não tradicional”:
O Plano Setorial do Artesanato engloba
tanto o artesanato tradicional, aquele
produzido a partir de uma técnica que um
grupo detém e que é passada de geração
em geração, como também um tipo de
artesanato mais recente, que envolve outros
materiais e design mais contemporâneo
(MEC, 2015, p. 2).
O bordado contemporâneo vai
adicionar novos materiais e estilos
de design até então não associados
ao bordado tradicional. Nesse sentido
são representativas as obras da
artista sul-africana Danielle Clough,
que utiliza raquetes de tênis como
suporte; a brasileira Rosana Paulino,
que trabalha na série Bastidores
(1997) com a técnica de transferência
de imagem sobre tecido; e a peruana
Juana Gómez que, nos seus estudos
de paisagens ultrapassa as margens
dos bastidores, brincando com
o espaço que transita entre o bi
e o tridimensional.
Ainda no âmbito das relações
entre arte decorativa e bordado, A
CASA (Museu do Objeto Brasileiro)
— cujo foco está nos objetos de
matriz artesanal, semiartesanal e
industrial — realizou em maio de
2017 uma mostra, com curadoria
do designer têxtil Renato Imbroisi,
cuja expografia reproduzia uma
casa, com suas portas, janelas e
cômodos, formada e preenchida por
mais de 200 peças bordadas vindas
dos 26 estados brasileiros e do
Distrito Federal. Nessa exposição,
algumas peças foram expostas em
bastidores de variados tamanhos,
revelando assim a possibilidade
modular do bordado em bastidor,
algo muito pertinente na decoração.
85