de papel, estão ali, pilhando ainda o território. Ao passo que a expansão das
religiões neo-pentecostais representam grande risco para as cosmologias
afroindígenas, afinal de contas, não interessa ao capital a dimensão sagrada
dos recursos naturais, a Iara, a caipora, o curupira.
De modo que desde que este trabalho aconteceu na minha vida, eu não paro
de me perguntar O QUE PODE UM LIVRO? Tenho tido muitas respostas a
essa pergunta, mas ela se refaz sempre feito pele de cobra, indomável e
nunca se satisfaz. por isso sempre a faço de novo.
Hoje cedo deu de aparecer um bilhete que Xica, uma das crianças da Kaí, com
quem tenho amizade desde 2016, que ela me deu no lançamento do nosso
livro este ano. Ela dizia: nunca vou esquecer do que passamos. Sempre me
emociono quando leio isso porque a lembrança daquilo que perdura no corpo,
da experiência estética de criação dessas histórias, desse livro vivo partilhado,
na mata, é pra mim a prova de fogo do afeto. Afetar e ser afetado. Resistir
poeticamente. Viver a força dos encantados no corpo. Falar da mãe dágua.
E isso redimensionou meu fazer e principalmente meu desejo de fazer livros
em situações de co-autoria. Com os pataxó aprendi profundamente
o significado do livro vivo.
te escrevo da UFBA, estou debaixo de uma mata bem perto da Escola de
Dança. A mata chia e eu sinto algo sobrenatural no topo do meu orí. Por um
segundo tenho vontade de subir nas árvores e isso me dá uma saudade das
crianças. Os ônibus lá fora sonoramente me trazem de novo para a cidade.
Como é bom estar permanentemente em trânsito.
Te mando uma foto em seguida de Tamykuã e do nosso livro vivo.
Um beijo grande,
Laura