REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 43

de papel, estão ali, pilhando ainda o território. Ao passo que a expansão das religiões neo-pentecostais representam grande risco para as cosmologias afroindígenas, afinal de contas, não interessa ao capital a dimensão sagrada dos recursos naturais, a Iara, a caipora, o curupira. De modo que desde que este trabalho aconteceu na minha vida, eu não paro de me perguntar O QUE PODE UM LIVRO? Tenho tido muitas respostas a essa pergunta, mas ela se refaz sempre feito pele de cobra, indomável e nunca se satisfaz. por isso sempre a faço de novo. Hoje cedo deu de aparecer um bilhete que Xica, uma das crianças da Kaí, com quem tenho amizade desde 2016, que ela me deu no lançamento do nosso livro este ano. Ela dizia: nunca vou esquecer do que passamos. Sempre me emociono quando leio isso porque a lembrança daquilo que perdura no corpo, da experiência estética de criação dessas histórias, desse livro vivo partilhado, na mata, é pra mim a prova de fogo do afeto. Afetar e ser afetado. Resistir poeticamente. Viver a força dos encantados no corpo. Falar da mãe dágua. E isso redimensionou meu fazer e principalmente meu desejo de fazer livros em situações de co-autoria. Com os pataxó aprendi profundamente o significado do livro vivo. te escrevo da UFBA, estou debaixo de uma mata bem perto da Escola de Dança. A mata chia e eu sinto algo sobrenatural no topo do meu orí. Por um segundo tenho vontade de subir nas árvores e isso me dá uma saudade das crianças. Os ônibus lá fora sonoramente me trazem de novo para a cidade. Como é bom estar permanentemente em trânsito. Te mando uma foto em seguida de Tamykuã e do nosso livro vivo. Um beijo grande, Laura