Em seg, 1 de jul de 2019 às 14:48, Laura Castro escreveu:
maré,
é bonito perceber aquilo que emergiu dos diálogos que traçamos no caminhar
dessa troca de palavras. fico cá pensando no poder que tem todo dedo de
prosa, todo encontro. de como é dele que nasce a faísca do possível.
do tempo que passou, talvez estejamos agora menos no tempo da faca e mais
no devir agulha que costura agora nossas experiências partilhadas.
me parece que há aqui dois encontros em relevo, recorrentes:
o meu na mata-mar dos pataxó no Extremo Sul da Bahia
y o seu com as poetas nas brenhas do Sertão Pernambucano.
penso que a experiência disso que chamamos Edições Zabelê, um projeto
com o qual nos propusemos viver a escola indígena da Aldeia Kaí, em
Cumuruxatiba, e a partir dela criar um livro, foi a experiência mais radical que
vivi de criação no campo das artes na perspectiva de uma partilha do sensível.
nossa estratégia de ação foi a realização de uma residência artística com uma
série de oficinas na escola, entre escritas e visualidades, que resultou no livro
lançado agora em 2019, “Kijetxawê Zabelê: Aldeia Kaí”. Primeiro vem o nome
da escola, depois o da comunidade, um título-endereço que durante um tempo
chamamos de livro-lugar.
falo no plural porque realizamos isso a partir de um grupo de artistas que tem
umbigo na Sociedade da Prensa e principalmente no nosso jeito de fazer livros de
modo experimental, levantando e provocando tudo que for matéria de edição, que
parecer coerente no percurso de escuta e escrita, de impressos e impressões.
mas quando falo da partilha do sensível, de tudo que vivi e viverei nas
andanças e ensinanças com os pataxó, para além de todas as etapas e modos
do processo criativo que ali se engendrou, na Aldeia Kaí, pra mim o mais
poderoso foi o afeto que se criou dessa relação.
Afeto este que nasce no seio da poesia, da poesia vivida. Tamykuã Pataxó,
uma irmã querida que fiz nesse processo, liderança da juventude no território,
diz que a única coisa que a colonização não conseguiu matar foram os
encantados. E foram eles o meu elo de conexão com as crianças ao ponto
de, entre histórias e desenhos, construirmos encantados de papelão, na
escala dos kitokes, e vivermos um livro vivo na mata, juntas, entre risadas e
encantamentos. Foi dessas experiências que resultaram em YAMANI, a história
da mãe dágua, uma das partes que compõe nosso livro, caso tenha curiosidade
de ver está disponível em www.edicoeszabele.com.br
O Extremo Sul é todo rodeado pela monocultura do eucalipto, Maré. As
nascentes já começaram a secar. As grandes empresas de celulose, que
abastecem as gráficas