Em qua, 12 de jun de 2019 às 13:31, Maré de Matos escreveu:
- eu que acreditei que o tempo do sertão era justo com nossas trocas, fui
deslocada pelas vastas tempestades -
a experiência no sertão transbordou todos os limites imaginados, juro, de fontes
de saber, de locução, de resistência pelas palavras, a oralidade e memória tão
aliadas, uma surpresa sem fim
fui em busca das poetas e antes da palavra poeta encontrei tantas mulheres das
palavras, que ora refutaram o nome poeta, ora se acolheram no nome poeta,uma
anti- lógica narrativa, primeiro a poesia e o tempo, depois a pauta política, depois o
título: há muito que se aprender no sertão e há muito que se ensinar às hegemonias -
severina branca, poeta de 75 anos, analfabeta, declamadora impressionante (te
mando uma fotografia e um áudio pra que ouça a voz que atravessa os tempos)
o sertão tava muito verde e também como disseram lá: o rio que há muito não
sangrava (passava de seu limite). paisagem surpreendente pra seca que querem,
sabedoria surpreendente pro limite de quem descreve
acho que o livro e a palavra escrita tem também esse poder: enclausurar
indígenas e negros e nos distrair do som que sai da boca da poesia dita
partilha, que tem o princípio da escuta, não é? sinto que fui ao sertão encontrar
e aprendi sobretudo que o que antecede o encontro é o reconhecimento -
precisamos percorrer outros territórios e expandir o vocabulário desse português
tão tímido se posto ao pé de tantas existências -
percorrer carinhosamente nossas diferenças. é matéria de poesia, não é? me
perdoe pela desordem no tempo, hei de fazer as pazes com os prazos pra dar
tempo às palavras.
te escuto muito bem daqui, viu?