REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 40

Imagino a intensidade dos teus deslocamentos sertanejos aí em Pernambuco, a procura de mulheres poeta. Que grande! Me conta mais sobre isso do jeito que você quiser? Uma foto grafia um impresso uma impressão? Eu segui o rastro do silêncio da noite de Severina Branca, fiz trilhas virtuais de seus passos e tive vontade de ouvir sua voz. Que tanto de língua é essa que você tem ouvido por aí? Que desfia e desafia a realidade? Penso em Pajeú e meu imaginário depõe contra mim: penso num Rio cortando terra, como a sanfona de Gonzagão narra: o Rio Pajeú vai desaguar no São Francisco: o Rio São Francisco vai bater no mei do mar. Mas talvez esteja aí o ponto. Caminhar na realidade desses territórios, no passo dialógico da procura e do encontro, nos provoca cortar tudo que se concebe antecipadamente, nos possibilita romper/atualizar/mover com os imaginários povoados pela distância. me entende? De novo me vem a experiência com os pataxó confrontada com toda sorte de imagens engessadas dos indígenas que nos chegam pelos livros, pelo vocabulário repetido do mundo não-indígena. Y agora novamente me chega a imagem da escrita-faca, dessa vez grafando o rosto de um parente pataxó, A pintura corporal indígena é também uma grafia, é poesia, não é? Esse corpo partido fica no meu sentimento como a experiência mesmo de se transmutar na voz, na palavra, em todo e qualquer risco não alfabético, mas que deixa marcas. É o corte que inscreve o corpo ou a sutura a escrita da cicatriz? Relendo de novo a convocatória da Revista Miolo descobri que não era sobre corpo partido o tema dessa edição, mas sobre o corpo partilhável, o que eu achei bem bonito e senti que tinha a ver sobretudo com os caminhos poéticos que aconteciam do lado daí. Eu fico aqui de faca e ouvido afiados Espero te ler em breve E alimentar nosso diálogo. Um beijo grande.