Imagino a intensidade dos teus deslocamentos sertanejos aí em Pernambuco, a
procura de mulheres poeta. Que grande! Me conta mais sobre isso do jeito que você
quiser? Uma foto grafia um impresso uma impressão?
Eu segui o rastro do silêncio da noite de Severina Branca, fiz trilhas virtuais de seus
passos e tive vontade de ouvir sua voz.
Que tanto de língua é essa que você tem ouvido por aí? Que desfia e desafia
a realidade?
Penso em Pajeú e meu imaginário depõe contra mim:
penso num Rio cortando terra, como a sanfona de Gonzagão narra: o Rio Pajeú
vai desaguar no São Francisco: o Rio São Francisco vai bater no mei do mar.
Mas talvez esteja aí o ponto.
Caminhar na realidade desses territórios, no passo dialógico da procura e do
encontro, nos provoca cortar tudo que se concebe antecipadamente, nos possibilita
romper/atualizar/mover com os imaginários povoados pela distância. me entende?
De novo me vem a experiência com os pataxó confrontada com toda sorte de
imagens engessadas dos indígenas que nos chegam pelos livros, pelo vocabulário
repetido do mundo não-indígena.
Y agora novamente me chega a imagem da escrita-faca, dessa vez grafando o
rosto de um parente pataxó,
A pintura corporal indígena é também uma grafia, é poesia, não é?
Esse corpo partido fica no meu sentimento como a experiência mesmo de se
transmutar na voz, na palavra, em todo e qualquer risco não alfabético, mas que
deixa marcas.
É o corte que inscreve o corpo ou a sutura a escrita da cicatriz?
Relendo de novo a convocatória da Revista Miolo descobri que não era sobre corpo
partido o tema dessa edição, mas sobre o corpo partilhável, o que eu achei bem
bonito e senti que tinha a ver sobretudo com os caminhos poéticos que aconteciam
do lado daí.
Eu fico aqui de faca e ouvido afiados
Espero te ler em breve
E alimentar nosso diálogo.
Um beijo grande.