Em qua, 10 de jul de 2019 às 13:05, Maré de Matos escreveu:
Laura, amada, ao te ler sinto parte do meu corpo em uma conexão extraterritorial.
Aqui, agora, faz muito frio e uso um aquecedor pra dar conta de inventar um outro
micro-clima. É curioso perceber que estas nossas trocas foram marcadas por um
endereçamento, uma experiência geosensível, porque no meio desta terra que você
percorreu e da terra do sertão que nadei, tem muitos símbolos que a colonização
felizmente não matou. Fiquei pessoalmente encantada pela descrição dos gestos
e atividades e com muita vontade de trabalhar coautoria, coedição, com partilha.
Daqui, a incursão poética pelo sertão começou com o desejo de conhecer
as poetas além do historiado.
Este desejo se completa com a viagem porque quando chegamos pra registrar a
presença destas poetas, entendemos justamente pelo vocabulário poético do pajeú,
que a maioria delas, não se entendem nem se circunscrevem poetas. Logo, se abre
uma janela em relação à esta pesquisa. Tem um preâmbulo que nos convida a um
passo anterior, pra entender do que se trata este campo (que projetam pouco, que
projetam seco mas que tem tanto e é verde).
Assim, logo, entendemos mais do que é próprio deste território. Geográfico, histórico,
situacional, social.
Precisamos de uma pedagogia híbrida que dê conta de tocar as peles das mulheres,
que surpreendem em todo contato. O princípio da oralidade como costura prática
e estratégica de comunicação, as motivações poéticas tão imersas na ordem da
vida; celebrações de nascimento e despedidas; a narrativa dos máximos e mínimos.
Acionamos carros de som, rádio, vasculhamos antologias, disponibilizamos números,
pesquisadoras do próprio pajeú, assim se forme a bússola complexa da nossa busca.
O encontro, além do que se pode imaginar, dinamita qualquer projeção prévia.
As existências múltiplas das poetas, ensinam de maneira sutil, que não há
como mensurar rigorosamente suas complexidades, nem em uma página, sua
humanidade.
A motivação da pesquisa nasceu por supor que a potência da poesia destas
mulheres, era maior do que se tinha notícia, e nesta incursão, esta suposição é tudo
que se confirma.
Concordo contigo, que neste momento, tecemos mais que o tempo das afiadas
facas. Mas fica a impressão deste rastro, deste registro, que só desenha a forma, a
partir da partilha da vida, no campo das experiências. Penso que tanto você no sul da
bahia, quanto eu no pajeú em Pernambuco, colocamos à prova, o peso do livro em
relação
à asa da palavra.
Em anexo, te mando esboços visuais do poesia pra pixo, que nasceu com desejo
de ir pra rua.
Com muito carinho, maré