REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 107

separam os sujeitos. Os últimos trabalhos de Lygia Clark guardam uma conexão com a dimensão do ritual, que estaria na origem do que temos hoje por “performance”, numa espécie de ritual sem mito. As práticas ancestrais em seus rituais, costumam compreender objetos sagrados, que sendo vestes, adereços ou estruturas habitáveis, buscam em suas diversas finalidades uma conexão com o espiritual. Estas tecnologias espirituais, por assim dizer, são objetos que fendem o cotidiano para uma necessidade pungente de comunhão, de autocuidado, de percepção ampla do mundo, e – embora não guardem pretensão artística – se constituem de uma beleza singular, imanente, onde o prazer estético está associado aos processos normais do viver². É na experiência de ritual³, que o sujeito pode se tornar um outro, se transformar naquele instante, temporária ou permanentemente, como nos ritos de passagem. Lygia Clark de algum modo se aproximou desse lugar, realizando operações desterritorializantes importantes dentro da própria arte. O limite tênue entre o que é vestível e o que é habitável mostra que o corpo também se trata de um espaço e vice-versa. A vida que atravessa desertos de impossibilidades, se auto organiza em possíveis impossíveis modos de ser, modos de se habitar. Talvez a arte seja uma festa onde diferentes subjetividades encontrem meios de partilhar outras formas de existir. Penso os vestíveis como tecnologias de transformação 4 , por sua capacidade de influenciar e modificar os modos de vida. São tecnologias que ultrapassam 2. Como pontua o filósofo norte-americano John Dewey, em Arte como Experiência. 3. Richard Schechner aborda a questão do ritual e da performance em “Ritual do Introduction to Performance Studies”, que integra o livro Performance e Antropologia de Richard Schechner (2012), organizado por Zeca Ligiéro. 4. Tecnologia de transformação é um conceito da pesquisadora japonesa Eiko Ikegami, abordado por Christine Greiner em seu livro Leituras do Corpo no Japão, de 2015.