separam os sujeitos. Os últimos
trabalhos de Lygia Clark guardam
uma conexão com a dimensão do
ritual, que estaria na origem do
que temos hoje por “performance”,
numa espécie de ritual sem mito.
As práticas ancestrais em seus
rituais, costumam compreender
objetos sagrados, que sendo vestes,
adereços ou estruturas habitáveis,
buscam em suas diversas finalidades
uma conexão com o espiritual.
Estas tecnologias espirituais, por
assim dizer, são objetos que fendem
o cotidiano para uma necessidade
pungente de comunhão, de
autocuidado, de percepção ampla
do mundo, e – embora não guardem
pretensão artística – se constituem
de uma beleza singular, imanente,
onde o prazer estético está associado
aos processos normais do viver².
É na experiência de ritual³, que o
sujeito pode se tornar um outro,
se transformar naquele instante,
temporária ou permanentemente,
como nos ritos de passagem.
Lygia Clark de algum modo se
aproximou desse lugar, realizando
operações desterritorializantes
importantes dentro da própria arte.
O limite tênue entre o que é
vestível e o que é habitável
mostra que o corpo também se
trata de um espaço e vice-versa.
A vida que atravessa desertos de
impossibilidades, se auto organiza
em possíveis impossíveis modos de
ser, modos de se habitar. Talvez a
arte seja uma festa onde diferentes
subjetividades encontrem meios de
partilhar outras formas de existir.
Penso os vestíveis como
tecnologias de transformação 4 ,
por sua capacidade de influenciar
e modificar os modos de vida.
São tecnologias que ultrapassam
2. Como pontua o
filósofo norte-americano
John Dewey, em Arte
como Experiência.
3. Richard Schechner
aborda a questão
do ritual e da
performance em
“Ritual do Introduction
to Performance
Studies”, que integra
o livro Performance
e Antropologia de
Richard Schechner
(2012), organizado
por Zeca Ligiéro.
4. Tecnologia de
transformação é
um conceito da
pesquisadora japonesa
Eiko Ikegami,
abordado por Christine
Greiner em seu livro
Leituras do Corpo
no Japão, de 2015.