REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 108

a noção do pensar separado do corpo e assumem, sim, um pensar-sentir que é corpo e que se estende a suas linguagens. Essas tecnologias trazem a questão o corpo e seus limites, e o repensar da própria existência. Os movimentos do ser no tempo e no espaço compõem o visível de um corpo, que é pele, tecido, superfície, volume e devir. Assim, enquanto se percebe os limites do corpo e sua efemeridade, é também reconhecida sua plasticidade e força retórica; sua permeabilidade, como espaço “entre”. 110 O movimento de emancipação do corpo é análogo ao movimento de emancipação do sujeito. Assim, volto meu olhar para práticas urbanas em cruzamento com práticas xamânicas de povos originários, subtropicais, buscando contemplá- las como ambientes onde o exercício criativo do corpo e seu entorno se dá de modo libertador, diverso ao do colonialismo. Questiono de que modo o desabamento das estruturas psiquicamente coloniais não seria um caminho. Diante deste desconhecido si mesmo - na era da informação, da sociedade do desempenho, das tecnologias avançadas, das viagens interplanetárias – observa- se um movimento de retorno a um estado de inocência, frente a eminente anestesia que nos assombra, resultado de uma sensação de impotência política. Os Corpos (Im)possíveis como tecnologias de transformação, situam-se num contexto de desabamento, de precariedade. São tentativas de resiliência perante a crises, situações-limite vividas no nosso tempo, que nos convidam a devir outra, outro, outres. A crise apresenta-se como situação de vulnerabilidade, ou de desamparo, da qual nos fala Vladimir Safatle (2015). A situação de desamparo que impulsiona o sujeito a inventar-se, é o lugar de onde surge a consciência da própria vulnerabilidade, sem expectativas de ganhos; é o que impulsiona o sujeito a ser agente transformador(a), que abdica da necessidade de sustentação de suas propriedades, e até mesmo, do que vem constituindo-o como um indivíduo distinto da sociedade. Talvez a questão não seja mais ser ou não ser, mas, “por que não ser?”, já que não ser não é uma questão de escolha, mas sim, de estar subjugado(a) a alguma forma de imposição alheia, de negação heterônoma dos possíveis, mesmo quando esta negação é interiorizada e exercida pelo próprio sujeito a despeito dele(a) mesmo(a). Ser não requer sujeição, mas descascamento, desconstrução, potência de negatividade, ou seja, a negação da ação automática, a força de não fazer. De tudo que não sabemos sobre o Ser impossível, talvez possamos inferir que é um ser cansado(a), oriundo de um desabamento, parecido(a) com o super humano de Nietzsche ou com o Índio de Caetano Veloso portando a mais avançada das tecnologias, e que talvez more num lugar chamado Lugar Nenhum, onde seja possível viver de modo contemplativo.