REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 106

1. O filósofo Michel Foucault aborda a temática das tecnologias de si, conceituando: “Tecnologias de si, que permitem aos indivíduos efetuar, com seus próprios meios ou com a ajuda de outros, um certo número de operações em seus próprios corpos, almas, pensamentos, conduta e modo de ser, de modo a transformá- los com o objetivo de alcançar um certo estado de felicidade, pureza, sabedoria, perfeição ou imortalidade”. (FOUCAULT, p.323.1982) ações performáticas. O lugar da performance, que até então era latente, ganhou um relevo maior na minha trajetória. Sendo no contexto onde eu ou outra artista realizava uma ação, numa proposta de coautoria, o corpo se apresentava como centro de cruzamento de forças, subjetividades e afetos. Era na presença do corpo de uma pessoa que o vestível era escrito e se dava à leitura simultaneamente; por outro lado, na sua ausência, se assemelhava a uma crisálida, como indício de um processo único. A aproximação com a dança e com o teatro contribuiu para a elaboração de novas perguntas, que tangenciam a relação objeto- corpo e suas possíveis configurações híbridas; a compreensão do ritual e da experiência no processo criativo para ações performáticas; sua implicação na coletividade como forma de tecnologia de si 1 ; a relativização da fronteira entre arte e não-arte, a aproximação da arte com a vida e sua dimensão ética e política. São questões que alimentam minha atual pesquisa de doutorado em dança, tendo como tema Corpos (Im)possíveis: Objetos híbridos performáticos a partir de Lygia Clark. Nela, me proponho partir da observação e análise dos trabalhos e escritos mais recentes da artista brasileira, que foi também referência na minha pesquisa de mestrado, na qual é observada a emergência de corpos híbridos, que se configuram das proposições de relação com objetos criados pela artista, bem como sua potência performativa. Atuante nas décadas de 60 e 70, Lygia Clark reflete questões próprias do contexto histórico social daquela época, de um momento político autoritário do qual é possível perceber ainda hoje seus ecos e reverberações. Ela nos legou um material potente e singular que aponta para um processo de ressignificação da própria Arte, de onde é possível perceber a estética como posicionamento político de insubordinação às forças de redução dos sujeitos. A arte estaria no lugar da experiência. As relações éticas e políticas teriam maior influência no processo de criação, que se descondiciona da concepção ocularcêntrica da obra de arte para se propor uma abertura cinestésica. A obra se torna proposição de relação. Criações que partem do próprio cotidiano dos artistas, em suas deambulações interessadas na transformação do ser, na celebração do corpo e suas possibilidades e no estreitamento das distâncias que