1. O filósofo Michel
Foucault aborda
a temática das
tecnologias de
si, conceituando:
“Tecnologias de si,
que permitem aos
indivíduos efetuar, com
seus próprios meios ou
com a ajuda de outros,
um certo número de
operações em seus
próprios corpos, almas,
pensamentos, conduta
e modo de ser, de
modo a transformá-
los com o objetivo
de alcançar um
certo estado de
felicidade, pureza,
sabedoria, perfeição
ou imortalidade”.
(FOUCAULT,
p.323.1982)
ações performáticas. O lugar da
performance, que até então era
latente, ganhou um relevo maior
na minha trajetória. Sendo no
contexto onde eu ou outra artista
realizava uma ação, numa proposta
de coautoria, o corpo se apresentava
como centro de cruzamento de
forças, subjetividades e afetos.
Era na presença do corpo de uma
pessoa que o vestível era escrito e
se dava à leitura simultaneamente;
por outro lado, na sua ausência, se
assemelhava a uma crisálida, como
indício de um processo único.
A aproximação com a dança e
com o teatro contribuiu para a
elaboração de novas perguntas,
que tangenciam a relação objeto-
corpo e suas possíveis configurações
híbridas; a compreensão do
ritual e da experiência no
processo criativo para ações
performáticas; sua implicação
na coletividade como forma de
tecnologia de si 1 ; a relativização
da fronteira entre arte e não-arte,
a aproximação da arte com a vida
e sua dimensão ética e política.
São questões que alimentam minha
atual pesquisa de doutorado em
dança, tendo como tema Corpos
(Im)possíveis: Objetos híbridos
performáticos a partir de Lygia
Clark. Nela, me proponho partir da
observação e análise dos trabalhos
e escritos mais recentes da artista
brasileira, que foi também referência
na minha pesquisa de mestrado, na
qual é observada a emergência de
corpos híbridos, que se configuram
das proposições de relação com
objetos criados pela artista, bem
como sua potência performativa.
Atuante nas décadas de 60 e 70,
Lygia Clark reflete questões próprias
do contexto histórico social daquela
época, de um momento político
autoritário do qual é possível
perceber ainda hoje seus ecos
e reverberações. Ela nos legou
um material potente e singular
que aponta para um processo de
ressignificação da própria Arte, de
onde é possível perceber a estética
como posicionamento político de
insubordinação às forças de redução
dos sujeitos. A arte estaria no
lugar da experiência. As relações
éticas e políticas teriam maior
influência no processo de criação,
que se descondiciona da concepção
ocularcêntrica da obra de arte para
se propor uma abertura cinestésica.
A obra se torna proposição de
relação. Criações que partem do
próprio cotidiano dos artistas, em
suas deambulações interessadas na
transformação do ser, na celebração
do corpo e suas possibilidades e no
estreitamento das distâncias que