REVISTA MIOLO Miolo_12_05_2019 | Page 105

sobre diários, meus e de outras artistas, passando pela revisão do conceito de escrita, e contemplei a possibilidade de uma escrita íntima que, desvinculando-se de compromissos com a verdade- confissão e com antigos formatos, se lançava no campo experimental da invenção, ou autoinvenção. Este conceito, Diários Visuais Sonoros, abrange diversos meios que se interrelacionam numa linguagem híbrida, que gerou objetos poéticos, como livros, vestíveis, vídeos, fotografias e outros. Os vestidos-diário, também chamados de vestíveis, nem sempre tinham formato de vestido propriamente. Assumiam outras dimensões, volumes, texturas e um caráter relacional. Para além da maleabilidade que o tecido traz, a escrita é também um trabalho lítico, tátil, que pelo corpo se investe contra o vazio, borrando os limites entre o dentro e o fora. Nos vestíveis, o caráter corpóreo da escrita revela um diário vivo, transitório, inacabado, por sua íntima relação com as superfícies, como se vê nos primórdios da história da escrita, nas pedras, papiros e pergaminhos. Meu interesse então começa a se direcionar para essas estruturas que revestem o corpo, como suas extensões, e a sua relação com a subjetividade de quem as veste. Em algum momento percebi que enquanto fazia os vestidos, eles “me faziam”, eles eram meu devir-outra, caleidoscópica, dessemelhante a mim. São registros tridimensionais de momentos da vida, como peças rituais de transformação do eu. Observei que existia um movimento reflexivo de transformação a partir da interação entre sujeito e objeto pela expansão do corpo. Este processo, denominado embodiment, cujas traduções são diversas, começou a ser estudado no campo da fenomenologia, a partir de Maurice Merleau-Ponty, na década de 40, e foi desenvolvido posteriormente por outros autores, como o pós- fenomenologista Don Ihde e a teórica contemporânea do teatro, Erika Fischer-Lichte. Esta última, irá aprofundar e situar o conceito de embodiment nos estudos da performance, buscando dissolver as dicotomias corpo e mente, palavra e gesto, na compreensão da capacidade de afecção entre sujeito e objeto, de um corpo como processo. Os vestíveis me convidavam a vesti-los e a despir-me, a me virar ao avesso, o que suscitou o desenvolvimento de algumas 107