sobre diários, meus e de outras
artistas, passando pela revisão do
conceito de escrita, e contemplei
a possibilidade de uma escrita
íntima que, desvinculando-se de
compromissos com a verdade-
confissão e com antigos formatos,
se lançava no campo experimental
da invenção, ou autoinvenção. Este
conceito, Diários Visuais Sonoros,
abrange diversos meios que se
interrelacionam numa linguagem
híbrida, que gerou objetos
poéticos, como livros, vestíveis,
vídeos, fotografias e outros.
Os vestidos-diário, também
chamados de vestíveis, nem
sempre tinham formato de vestido
propriamente. Assumiam outras
dimensões, volumes, texturas e
um caráter relacional. Para além
da maleabilidade que o tecido traz,
a escrita é também um trabalho
lítico, tátil, que pelo corpo se investe
contra o vazio, borrando os limites
entre o dentro e o fora. Nos vestíveis,
o caráter corpóreo da escrita
revela um diário vivo, transitório,
inacabado, por sua íntima relação
com as superfícies, como se vê nos
primórdios da história da escrita,
nas pedras, papiros e pergaminhos.
Meu interesse então começa a se
direcionar para essas estruturas
que revestem o corpo, como suas
extensões, e a sua relação com a
subjetividade de quem as veste.
Em algum momento percebi que
enquanto fazia os vestidos, eles “me
faziam”, eles eram meu devir-outra,
caleidoscópica, dessemelhante a
mim. São registros tridimensionais
de momentos da vida, como peças
rituais de transformação do eu.
Observei que existia um movimento
reflexivo de transformação a partir
da interação entre sujeito e objeto
pela expansão do corpo. Este
processo, denominado embodiment,
cujas traduções são diversas,
começou a ser estudado no campo da
fenomenologia, a partir de Maurice
Merleau-Ponty, na década de 40,
e foi desenvolvido posteriormente
por outros autores, como o pós-
fenomenologista Don Ihde e a
teórica contemporânea do teatro,
Erika Fischer-Lichte. Esta última,
irá aprofundar e situar o conceito
de embodiment nos estudos da
performance, buscando dissolver
as dicotomias corpo e mente,
palavra e gesto, na compreensão da
capacidade de afecção entre sujeito e
objeto, de um corpo como processo.
Os vestíveis me convidavam a
vesti-los e a despir-me, a me
virar ao avesso, o que suscitou
o desenvolvimento de algumas
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