REVISTA LÍDER COACH N 13 - Janeiro - 2019 - Ano VI | Page 8
ENTRE JOVENS
RECLUSOS
RENATO COSTA BARBOSA
O meu primeiro contato com jovens
reclusos foi em meu período de
serviço militar. Eu pertencia ao canil
do 2º BPE (Batalhão de Polícia do
Exército), em 1982. A ideia original
seria de ter um contato inicial com os
jovens de uma instituição, realizando
algumas demonstrações com nossos
cães de guerra, com comandos
básicos tipo: senta, junto, deita,
levanta, etc. Também deveríamos
permitir o acesso dos internos com
nossos cães, deixando-os manter um
contato físico com nossos animais.
Hoje, como um líder experiente
vejo que há que se tomar cuidado
quanto aos mínimos detalhes.
Quando lá chegamos, minha
primeira sensação foi de mal-estar,
pois os garotos se encontravam
sujos e exalando suor. Os cães,
imediatamente, sentindo o forte
odor dos jovens, começaram a latir e
a se agitar. Só esclarecendo: quando
treinamos o ataque, um dos artifícios
que utilizamos é o forte odor,
característico daqueles que passam
horas e horas nas ruas em busca
de vítimas e “transpiram” de medo,
no contato com cães treinados.
A diretora daquela instituição nos
apresentou a um pequeno grupo
de jovens e nos deixou a sós para
iniciarmos a demonstração dos
comandos de obediência dos cães.
Passamos algumas horas juntos e os
meus colegas foram colocar os cães
na caminhonete, e eu fui dar água
para minha cadela. Neste momento,
os internos se recolheram, menos um.
Esse, quando veio em minha
direção balançando um cabo de
vassoura minha cadela se pôs em
posição de ataque. Falei forte para
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o garoto largar a arma. Coloquei
a cadela deitada e dei ordens
para ficar. O animal me obedeceu,
mas ficou em estado de alerta.
Fui em direção a ele que soltou
o cabo de vassoura e começou a
simular posição de luta – imitando
uma luta marcial tipo kung fu.
Imediatamente me posicionei,
imitando-o. Ele não esperava minha
reação, mas antes dele dar o primeiro
golpe, pedi desculpas e disse:
- Opa, me esqueci do
mais importante...
Ele fez uma cara de interrogação.
Então, juntei as pernas, juntei as
palmas das mãos e dobrei o corpo
para frente, saudando-o, como fazem
os competidores antes do embate.
Na mesma hora esse garoto
mudou a feição, a postura e se
acalmou. Ele pediu com muita
educação para passar a mão em
minha cadela. Expliquei-lhe que o
que ele tinha feito anteriormente
deixara a mesma agitada e pronta
para atacar-lhe. E que ela ainda
estava tensa com a situação.
Expliquei-lhe que precisava dar-
lhe água e tranquilizá-la para
depois chegar perto dele. Falei
que ele não poderia sentir medo,
mesmo que não demonstrasse
e que não fizesse gestos rápidos
nem grosseiros. Ele concordou.
Retornei com a cadela e a pus
deitada ao lado do garoto. Nisso,
ele chamou os outros jovens que
vieram lentamente acariciar minha
cadela. Todos estavam tranquilos
e se sentaram no chão e, de forma
suave e lenta, fizeram carinho nela.
Ficamos uns 40 minutos
conversando e eu respondendo as
inúmeras perguntas dos jovens.
Eles disseram que queriam que eu
voltasse; os outros soldados não,
apenas eu. Achei estranho esse
pedido, mas enfim, pensei que
eu tivesse dado maior atenção.
O que eu percebi nesse episódio foi
a mudança comportamental nos
jovens, isto é, de pessoas agressivas
e agitadas, para calmas e submissas,
carentes e interessadas num animal.
Sem eu querer, quebrei a barreira
que os separa da vida normal, das
regras, da disciplina, do respeito.
Esse comportamento se repetiu
quando ministrei cursos na Fundação
CASA (ex-FEBEM), em três unidades
pelas quais passei. A primeira
em que atuei foi em uma região
afastada do centro de São Paulo,
uma Casa Feminina. Fui conhecer
o local, as internas, os funcionários
e, principalmente, as regras. Não
tive uma boa impressão. Falei para
minha coordenadora que eu não
iria fazer nenhuma diferença ali
e concluí que não daria certo.
Havia gritaria das internas, muita
falta de respeito, discussão
com os funcionários. Elas eram
tratadas como prisioneiras de
presídio, tipo segurança máxima.
Eles as mantinham sentadas no
chão, enfileiradas, sem poder se
mexer. Aquilo era parte da rotina
da CASA. A falta de respeito se
dava nos dois lados. As internas
estavam descabeladas, usavam
uniforme desbotado, cada uma
de um jeito, desarmonizadas, sem
qualquer tipo de organização
ou padrão. Muito estranho!