REVISTA LÍDER COACH N 13 - Janeiro - 2019 - Ano VI | Página 9
Elas não nos cumprimentaram, nem
demonstraram qualquer curiosidade
em saber o que faríamos ali. Não
ligaram, não se interessaram e não
prestaram nenhuma atenção.
O curso se iniciaria dali a dois dias.
Pensei na hora e novamente a
dúvida: o que eu poderia fazer?
Como daria aulas sem recursos?
Entrei na sala. Cheirava mal, era
quente, abafada, apertada e
sem ventilação. O barulho do
corredor, a gritaria dos funcionários
e o eco que se produzia ali
dentro eram elementos para
que tudo desse errado.
Mas, minha curiosidade em saber
como seria dar aula para essas
mudaram. O resultado? Foram
desinternadas mais rapidamente.
Os juízes que avaliam uma série
de condições, começaram a ser
favoráveis para liberá-las, pois
haviam percebido a grande
mudança que apresentavam.
Uma das primeiras ações foi
apresentar uma postura diferenciada,
a forma de se sentar, de falar, sem
uso de gírias; passaram a ler livros,
aumentaram o vocabulário, estavam
se arrumando de forma melhor e
consequentemente se comportando
muito melhor. Acabou a gritaria dos
funcionários com as internas. Enfim,
mudou da água para o vinho! Tudo!
Só dei o melhor que eu poderia
internas num local inapropriado,
sem o interesse delas, sem recursos
e, para piorar, elas sendo obrigadas
(por Lei) a participar das aulas.
Por um momento pensei em
desistir antes de começar. Ainda
assim, me fiz aceitar o desafio de
tentar ensinar alguma coisa.
Eu já havia aplicado cursos para
pessoas em vulnerabilidade
social, atingindo resultados muito
satisfatórios. E os cursos que eu
ministraria naquela CASA não
seriam tão diferentes assim. Pensei
em investir o mesmo esforço e
foco no grupo de internos.
Confesso, não foi fácil! Ainda
mais que havia uma ONG que
aplicava cursos há alguns anos,
em um formato bem diferente
de nossa proposta. Foi bem difícil
quebrar a barreira do descaso
das internas e conseguir atenção
ao conteúdo proposto.
Mas algo aconteceu quando baixei
a guarda e demonstrei genuíno
interesse em querer ajudar, em
querer ensiná-las, principalmente em
mudar a atitude de cada uma delas.
Uma a uma foi se convencendo de
que eu realmente estava ali para
ajudar. Em seis meses, algumas
em algumas situações. Muitos
possuem talentos escondidos
que foram inibidos. Todas estão
ali por algum delito muito sério,
disso não há dúvida, mas sem
querer discutir o mérito, elas
estão pagando por isso, conforme
manda a legislação e, uma vez que
cumprirem a pena, estarão livres.
O trabalho que desenvolvi foi o
de resgatar a humanidade nessas
pessoas. A maioria pediu perdão
pelo que fez e se arrependeu.
Percebi que muitas cometeram
erros, dadas as circunstâncias em
que se encontravam, não que isso
justifique o ato falho em si, mas tenta
dar uma pista do porquê o fizeram.
No curso começaram a enxergar uma
ou, às vezes, várias oportunidades
e foram atrás do que vislumbraram.
Enquanto eu, felizmente, consegui
fazer uma pequena diferença
naquele momento de vida daquelas
pessoas, mas elas fizeram muito
mais por mim, incomparavelmente.
dar e fui reconhecido por
elas. Dei e exigi respeito e
consegui. Indiquei livros e
desenvolvi exercícios para
realidade em que viviam para
que pudessem melhorar.
O resto elas fizeram e o
resultado foi ótimo!
Nas outras duas outras CASAS
posteriores consegui repetir
o mesmo tipo de trabalho e
o resultado foi o mesmo.
Concluí que existem pessoas
(literalmente seres humanos)
dentro desses lugares, apesar de
serem tratados como animais
Renato Costa Barbosa é
economista, professor, palestrante,
e correspondente da revista
Líder Coach em Boston-USA.
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