Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre - Edição Especial 01 | 页面 57

LiteraLivre Edição Especial n º 1
É isso que não conseguia engolir! A violência da favela. O perigo iminente e latente do morro... É assustador! Coisa comum é ver brigas, tiros, mortes. Nem sabe quantos garotos da sua idade morreram por aqui nestes últimos meses! É rotina... Toda manhã os corpos aparecem jogados, perfurados por balas ou castigados por pancadas. Comum acontecer e difícil suportar... Impossível mesmo! Cassiano fica apavorado, temeroso, perdido.
Sua irmã chega à porta do barraco. Espreguiça o corpo demoradamente. Dormiu até agora. Já é quase noite! Está chegando a hora de Cassiano entrar. Sente vontade de esperar a mãe, ali. Mas, é perigoso, não convém.
O pai está demorando mais que o costume! Cassiano não se sente confortado. Gosta de ter o pai por perto quando a noite chega. Não tem remédio... É noite, e o jeito é entrar.
Cassiano ergue o corpo, olha novamente lá embaixo, no pé da escada. Nada... Nenhum dos dois aponta. Entra no barraco. A irmã, exalando um cheiro de flor, enjoativo, tem um espelho nas mãos e passa, repetidas vezes, o batom nos lábios. É bonita a danada! Cassiano olha-a demoradamente e pensa em como seria bom se ela tivesse metade da beleza em juízo. No mínimo sofreria menos no futuro. Esse tipo de vida nunca acaba bem, sempre deixa marcas e dissabores profundos.
Está assim, pensando, quando ouve a porta do barraco bater. A danada já saiu e ele nem tinha percebido!
Cassiano estremece quando se lembra de que está sozinho. Bem que a mãe podia chegar logo! Olha pela fresta da porta, mas nada vê. Está muito escuro lá fora... Senta-se no banco da cozinha e não consegue ficar sereno. Dentro do peito, a aflição, o desespero, o medo. Não quer ficar sozinho... Por que sua irmã não ficou com ele até a mãe chegar? Menina matreira! Pensa em contar tudo ao pai. Por que ele também não chega?!
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